‘Na Mata Tem Muito Mais!’, Garantem Moradores do Complexo da Penha Após Chacina Que Matou 23 #OQueDizemAsRedes

Chacina Deixa Pelo Menos 23 Mortos e 7 Feridos

Feridos durante operação policial são levados para o Hospital Getúlio Vargas. Foto: Fabiano Rocha/Agência O Globo

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A Chacina do Complexo da Penha deixou, até agora, 23 mortos e, pelo menos, 7 feridos. De acordo com fontes locais, que não serão identificadas, o número pode chegar a 30. Ao longo da manhã do dia 26 de maio, a Polícia Civil informava 26 mortos. No entanto, por volta do meio-dia, a imprensa começou a noticiar que, na realidade, o número caiu para 23. Segundo a Polícia Civil, essa redução se deve a um erro na identificação de três mortes que teriam acontecido no mesmo dia no JuramentoSerrinha, e não na Vila Cruzeiro. Esse fato mostra o desinteresse e desprezo oficial pelos moradores, tratados como seres indiscerníveis entre si.

Na madrugada de segunda-feira (23 de maio), por volta de 4h, tiros foram ouvidos por moradores das favelas e apartamentos populares em diversos territórios próximos ao maciço da Serra da Misericórdia, maior zona de mata da Zona Norte da cidade. Em grupos de aplicativos de mensagem e nas redes sociais, muitos perguntavam: “Estão ouvindo tiros? Alguém está sabendo se tem operação policial na região?”.

Começava uma operação da Polícia Militar em conjunto com a Polícia Rodoviária Federal (PRF) e a Polícia Federal (PF) que, até o final do dia, seria classificada como a segunda operação mais letal da história do Rio de Janeiro. Pesquisadores e organizações de direitos humanos—entre elas a Anistia Internacional, Justiça Global e Ordem dos Advogados do Brasil (OAB)—classificaram esse operação policial como uma chacina, mais uma na história do Rio de Janeiro.

As primeiras notícias de mortes na ação policial começaram a circular em grupos de WhatsApp e no Twitter às 5h33 junto com a informação de que uma moradora havia sido atingida por uma bala perdida. Gabrielle Ferreira da Cunha tinha 41 anos, era mãe de um jovem de 17 anos e foi alvejada dentro de casa na Chatuba.

Ao longo do dia, o número oficial de mortos subiria constantemente. Enquanto a polícia informava à imprensa a morte de dez suspeitos e dois feridos às 6h37, fontes locais já garantiam que o número era muito superior: “quase 30”.

Renata Trajano, moradora do Complexo do Alemão, defensora de direitos humanos e cofundadora do Coletivo Papo Reto, relatou nas redes que precisou se esconder no banheiro.

A ação com 80 homens do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar (BOPE), da PF e da PRF começou no Complexo da Penha, mas chegou até o Complexo do Alemão devido ao confronto na mata que separa os dois complexos de favelas. Vídeos com imagens de pessoas ensanguentadas—e cadáveres—chegando empilhadas em picapes de moradores ou em camburões da polícia ao Hospital Estadual Getúlio Vargas, também na Penha, começaram a circular em diversos portais de notícias e nas redes sociais.

Carregados como sacos de lixo até o hospital, os corpos das pessoas assassinadas eram transferidos para macas por enfermeiros, que pediam calma e tentavam ser rápidos na tentativa de achar algum sinal de vida.

Se seriam de fato 22 mortos, como noticiou o Estadão às 19h51, 23, como publicado pela Agência Ponte Jornalismo, ou 24, como informado pelo jornal Voz das Comunidades às 15h33, ninguém podia afirmar ao certo, pois a operação ainda se alongaria por horas, assim como os tiros e as mortes. Mas, de acordo com moradores que não serão identificados por questão de segurança, “a resposta está na mata”.

“Na mata tem muito mais! O forte da operação foi na mata. Quem vai lá para buscar? Todo mundo tem medo. No máximo, as famílias tentam socorrer e resgatar. Isso quando conseguem!  Mas ainda têm os outros…os que que não têm voz [de familiares]. Essas mortes são invisíveis. Esses, ninguém vai contar. Acham que a gente está exagerando. Mas de 3, subiu pra 8, 11,12, 14…18…20… e agora 24! Vai chegar a 30!”, declaram moradores.

#OQueDizemAsRedes

Na redação do RioOnWatch, chegaram vídeos que mostram o impacto da ação policial no Complexo da Penha. Em um deles, moradores cozinhavam à lenha no quintal, próximo à mata, quando precisaram largar a panela no fogo para se protegerem dos tiros. Em outros, familiares de pessoas feridas—ou mortas—andavam por uma estrada de terra no meio da mata à procura de vítimas.

Há relatos que dão conta de que uma boleira conhecida da região, Carla Caroline da Silva, de 18 anos, foi baleada no braço e na barriga junto a um mototaxista que a transportava para a parte alta da comunidade. Carla encontra-se internada no Hospital Getúlio Vargas, sob custódia da polícia, presa por supostamente, segundo a polícia, fazer parte do tráfico de drogas. O mototaxista, cujo nome ainda não foi divulgado, morreu ainda no local em decorrência dos tiros de fuzil. A cunhada de Carla, Pricilla, afirmou que a boleira foi à Serra da Misericórdia procurar o corpo do irmão, Carlos Henrique Pacheco da Silva, de 23 anos, assassinado pela polícia naquela localidade durante a operação. A Polícia Civil afirmou que sua prioridade agora é a identificação dos corpos dos assassinados e que só posteriormente começará as investigações sobre essas e outras violações ligadas à Chacina do Complexo da Penha. Enquanto isso, ela seguirá presa.

O Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni/UFF) repudiou a ação, afirmando ser “inaceitável que em um regime democrático uma ação oficial do Estado resulte em um número tão elevado de vítimas letais”.

Em nota pública, o grupo também denuncia que: “entre 2007 e 2021, ocorreram 593 chacinas policiais na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, em que foram mortos 2.374 civis e 19 policiais. Apenas este ano, já ocorreram 16 chacinas policiais com 71 mortos, dados esses que nos permitem constatar que as chacinas policiais são a regra e não a exceção no estado do Rio de Janeiro”.

Também com o objetivo de chamar atenção do poder público e interromper a operação, 20 organizações e movimentos sociais compartilharam uma nota pública em defesa aos direitos humanos e da vida, que classifica a estratégia de segurança pública como prática de genocídio da população negra e de favela.

“As entidades e movimentos signatários dirigem-se, por meio desta nota pública, ao Governo do Estado do Rio de Janeiro, ao Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, à Secretaria de Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, ao Departamento de Polícia Federal no Rio de Janeiro e à Superintendência da Polícia Rodoviária Federal no Rio de Janeiro para demandar o imediato cessar-fogo e o fim da operação conjunta na Vila Cruzeiro.”

Moradores do Complexo da Penha carregam corpos de familiares e amigos por estrada de terra na Serra da Misericórdia. Reprodução das redes sociaisEm outro trecho, as 22 organizações e movimentos sociais que assinam a nota, entre elas Anistia Internacional Brasil, Justiça Global, Instituto Marielle Franco, Casa Fluminense, Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial, Observatório de Favelas, Coletivo Papo Reto, Movimento Favelas Na Luta e Rede Nacional de Mães e Familiares de Vítimas do Terrorismo de Estado, denunciam a possibilidade de haver um número ainda maior de mortes na chacina.

“As organizações e movimentos vêm recebendo preocupantes relatos de familiares em desespero, em busca de notícias por entes ainda desaparecidos. Há notícias de que corpos de vítimas e potenciais feridos se encontram na região da mata, divisa entre o Complexo da Penha e do Alemão, e que mães e familiares estariam mobilizados a adentrar o local em meio ao tiroteio no desespero de localizar seus parentes”.

Ativistas de direitos humanos estiveram no Complexo da Penha e no Hospital Getúlio Vargas.

Cofundador do Coletivo Papo Reto, Thainã de Medeiros, encontrou um corpo com marcas de tortura e disse quase ter sido atingido por um policial dentro do Complexo da Penha:

Segundo a PM, a operação dessa segunda foi feita em conjunto com a Polícia Rodoviária Federal e Polícia Federal com o objetivo de localizar e prender lideranças criminosas que estariam escondidas na comunidade, oriundas inclusive de outros estados, como Alagoas, Bahia e Pará. Autoridades afirmaram que as prisões ocorreriam fora da comunidade, mas que uma guarnição foi “atacada pelo tráfico”, o que ocasionou uma “ação emergencial” das polícias na Vila Cruzeiro.

Em nota, o Ministério Público Federal (MPF) disse que foi comunicado por ofício antes da operação, como manda a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF)—ADPF das Favelas, que suspendeu operações policiais no Rio de Janeiro durante a pandemia salvo em casos que justifiquem a excepcionalidade. Porém, frente aos assassinatos e às outras denúncias de violações de direito ocorridas ao longo da operação, o MPF instaurou um procedimento investigatório para apurar as condutas de policiais, dando o prazo de dez dias para a polícia explicar a alta letalidade da operação. O Ministro do Supremo Edson Fachin, relator do julgamento da ADPF das Favelas no STF, ligou para o Procurador-Geral do Ministério Público do Rio de Janeiro Luciano de Oliveira Mattos de Souza para demonstrar sua preocupação com a alta letalidade policial.

Ao Som de Tiros…

Não foi apenas no Complexo da Penha que moradores acordaram ao som de tiros. Houve operações policiais em diversas favelas da Zona Norte e da Baixada Fluminense. Segundo post da Plataforma Fogo Cruzado, o primeiro registro de tiroteio foi às 3h30 da manhã do dia 24, dando “o tom de como seria o resto do dia“.

No total, o Fogo Cruzado mapeou 15 tiroteios no Grande Rio: Vila Isabel, Engenho de Dentro, Realengo, Complexo do Alemão, Vicente de Carvalho e Duque de Caxias. Pelo Twitter, o fundador do Voz das Comunidades, Rene Silva, também chamava atenção para as diversas operações em curso na cidade.

Na redação do RioOnWatch também chegaram relatos de lideranças que não conseguem realizar trabalhos comunitários em diversas favelas devido às operações policiais. Na comunidade do Itacolomi, na Ilha do Governador, um trabalhador narrou interrupções cotidianas.

“O que atrapalha aqui na comunidade é que os tiroteios não têm hora certa para acontecer. As crianças não vão para escola, a gente deixa de trabalhar… Nessas operações, os policiais não respeitam ninguém, vão entrando nas casas. Se não tiver morador, até roubam dinheiro ou outras coisas… Não temos como bater de porta em porta para entregar quentinhas ou fazer pesquisa de campo sem um ambiente seguro”.

Favela no Foco da Reeleição de Castro

Importante destacar que, no último dia 6 de maio, a Chacina do Jacarezinho, ação mais violenta da história da segurança pública do Rio de Janeiro, completou um ano. Pouco após o massacre dos 28 do Jacarezinho, no ano passado, o Governador Cláudio Castro anunciou o programa de segurança pública Cidade Integrada.

Na internet, houve boatos de que o próximo passo do governo seria instalar a ação também no Complexo da Penha. No entanto, de acordo com apuração do jornal Voz das Comunidades, a notícia é falsa.

Mesmo assim, o pesquisador da Rede de Observatórios da Segurança e do LabJaca, Pedro Paulo da Silva, em artigo publicado no último 6 de maio, chama atenção para como as ações policiais de extermínio, como a realizada um ano atrás no Jacarezinho, vêm se tornando foco da segurança pública da gestão de Cláudio Castro:

“A notoriedade nacional e internacional dada à chacina policial [do Jacarezinho], tanto por ser a mais letal da história do estado, quanto pela brutalidade de mortes, gerou críticas ao governo Cláudio Castro—que só existe pelo impeachment de Wilson Witzel. A tentativa de reeleição em outubro desse ano faz com que o Jacarezinho se torne o ‘foco’ de Castro, porque a Chacina do Jacarezinho é o evento mais marcante do estado nos últimos anos.”

No mesmo dia da Chacina do Complexo da Penha, o Governador Cláudio Castro, pré-candidato à reeleição pelo Partido Liberal (PL), defendeu a ação policial em uma sequência de sete tuítes.

O governador também afirmou que: “Quem aponta uma arma contra a polícia está apontando uma arma contra toda sociedade. Isso jamais vamos tolerar. Eu luto por um Rio de paz. Toda morte é lamentável, mas todos sabemos que nossas responsabilidades impõem que estejamos preparados para o confronto”. E completou: “Essa gente ruim quer matar o futuro do povo fluminense. Fora do império da lei e da ordem estão a barbárie e o banditismo. Não vamos permitir a anarquia no nosso estado”.

O Presidente da República Jair Bolsonaro, também pré-candidato à reeleição pelo mesmo partido do governador do Rio, da mesma forma, defendeu a ação policial. Inclusive, celebrou a chacina e parabenizou as equipes policiais.

Thiago Amparo, colunista da Folha de São Paulo e professor de direito da Fundação Getúlio Vargas, ressaltou que o termo legal para denominar essas ações da polícia é “execução extrajudicial” e não operação policial. Para o advogado é importante destacar o caráter ilícito da atuação das polícias no Complexo da Penha, no Jacarezinho e em tantas outras favelas do Rio de Janeiro e do Brasil.


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