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Prestando Homenagem às Mulheres da Favela no Dia Internacional da Mulher 

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De acordo com uma pesquisa publicada em Um País Chamado Favela, de Renato Meirelles e Celso Athayde, as favelas do Brasil abrigam em torno de seis milhões de mulheres. Cerca de 40% dos lares nas favelas são sustentados financeiramente por mulheres, que são responsáveis por angariar R$24 bilhões dos recursos que entram nessas comunidades. A maioria das mulheres que vive nas favelas são negras, casadas e têm filhos. O estudo também revelou que 66% das mulheres da favela não desejam se mudar para fora da sua comunidade.

Para homenagear o Dia Internacional da Mulher e as seis milhões de mulheres que vivem em favelas por todo o país, RioOnWatch compilou histórias de algumas líderes cujo importante trabalho em prol de suas comunidades cariocas foi relatado por nós no passado.

Cíntia Luna – Morro do Fogueteiro, Santa Teresa, Centro

Cintia Luna

Cíntia Luna é presidente da Associação de Moradores Unidos de Santa Teresa (AMUST), no Morro do Fogueteiro, e liderou o desenvolvimento da associação ao longo dos últimos oito anos. Moradora de longa data do Fogueteiro, uma das favelas de Santa Teresa, no Centro do Rio, Cíntia cresceu na comunidade e lembra de sua infância quando o progresso começou na região. Ela vai além de seus deveres para ajudar a comunidade: recentemente, Cíntia recebeu uma turma de corte e costura em sua casa depois que o projeto EcoModa foi expulso de sua sala de aula adaptada na Quadra do Fogueteiro. Ela também está muito presente na resolução de conflitos em sua comunidade.

“Eu gosto de ajudar quando é necessário, talvez seja isso”, disse em entrevista com RioOnWatch. “É difícil porque ás vezes a gente não tem motivação financeira, mas eu tenho a motivação do apoio às pessoas”.

Neuza Nascimento – Parque Jardim Beira Mar, Parada de Lucas, Zona Norte

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Conhecida por anos de disputas pelo tráfico de drogas com o bairro vizinho Vigário Geral, Parada de Lucas não tinha atividades alternativas para suas crianças até que Neuza Nascimento, mãe e amante dos livros, que na época trabalhava como faxineira, decidiu levar seu filho e alguns colegas em uma excursão durante um fim de semana para  afastá-los do baile funk. Esse pequeno gesto levou Neuza a um novo caminho–um que garantia que as crianças de sua comunidade tivessem uma relação com o mundo diferente daquela que foi “escrita para elas”. Neuza pôs em prática a fundação do Centro Integrado de Apoio às Crianças e Adolescentes da Comunidade (CIACAC).

“[Nos últimos 10 anos eu aprendi] que não basta pensar e querer”, disse Neuza para RioOnWatch. “É preciso fazer”.

Iara Oliveira – Cidade de Deus, Zona Oeste

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Cidade de Deus, a favela mais conhecida da Zona Oeste do Rio, se tornou conhecida graças ao livro e ao blockbuster internacional de mesmo nome, Cidade de Deus. A comunidade é ocupada hoje em dia por uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). Iara Oliveira é professora e ativista política. Ela é coordenadora do Alfazendo, uma organização comunitária que foca na alfabetização para moradores da comunidade de todas as idades. A ONG também trabalha como uma organização de advocacy e provê oportunidades de educação em geral e melhorias para a comunidade. Em grande parte auto-didata, Iara construiu sua carreira como professora e ativista política por mais de 30 anos e tem visto o Rio de Janeiro e a comunidade evoluírem drasticamente. Ela é inegavelmente apaixonada por sua comunidade e dedicada a melhorar as vidas das pessoas que moram lá.

“Eu não acredito em sucesso, eu acho que sucesso é só uma palavra”, disse ela, em resposta a uma pergunta sobre seu maior sucesso durante uma entrevista com RioOnWatch. “Eu acredito em trabalho coletivo. Eu não sou uma pessoa que busca sucesso: estou aqui para deixar alguma coisa pro povo. Eu sou muito… colaborativa. Tudo comigo é colaborativo, então não estou buscando sucesso exatamente. Estou procurando uma vida melhor para mim, para as pessoas na minha vida e para as pessoas de aonde sou. Então acho que o meu maior sucesso é não precisar ou querer sucesso”.

Regina Tchelly – Babilônia, Zona Sul

Regina Tchelly Babilonia BR

No prédio da Associação dos Moradores da Babilônia, na comunidade pacificada com vista para o Leme, Regina Tchelly e sua equipe servem uma série de pratos gourmet feitos com ingredientes normalmente vistos como lixo. A feijoada completamente vegetariana com farofa de raiz de agrião, risotto de casca de melancia e doce de casca de abóbora podem soar como cozinha experimental sem sentido, mas, na verdade, ela combina pratos deliciosos e gratificantes que maximizam os valores nutritivos e econômicos dos ingredientes. Tchelly fundou o Favela Orgânica com R$140 em sua casa na Babiblônia.

Ela conta: “A ideia é que pessoas com baixa e alta renda aprendam a usar toda a comida que eles trazem para suas casas e produzir refeições deliciosas como a que estamos servindo hoje. É de baixo custo, mais saudável e mais econômico”. O trabalho de Regina aparece no documentário Favela Como Modelo Sustentável.

Mães, irmãs e esposas de jovens vítimas da violência policial nas favelas do Rio

Ana Paula Oliveira 2

Com um crescente número de homicídios de adolescentes no Brasil e uma preocupante crise dos direitos humanos recentemente relatada pela Anistia Internacional, não é surpresa que mães, irmãs e esposas de vítimas da violência policial nas favelas tenham começado a se mobilizar contra a militarização da polícia e a pedir justiça para aqueles que foram mortos pelas autoridades. O assassinato do dançarino DG, de 26 anos, no Pavão-Pavãozinho, o assassinato de Jonatha de Oliveira Silva, de 19 anos, em Manguinhos, o desaparecimento de Amarildo na Rocinha e muitas outras violações levaram mulheres ao ativismo, como a mãe de Jonatha, Ana Paula Oliveira.

Durante um protesto setembro passado, Ana Paula disse: “Eu estou aqui hoje para pedir justiça porque o meu maior desejo é que esta violência acabe. Vemos toda hora, jovens morrendo na comunidade, sem direito de ir e vir no lugar em que nasceram. As pessoas não têm liberdade”.

Jane Nascimento – Vila Autódromo, Zona Oeste

Neuza Nascimento

Jane vem resistindo à remoção na Vila Autódromo desde 1992 e continua sendo uma presença constante em uma comunidade que está sendo ameaçada devido às Olimpíadas. Apesar de as construções do Centro de Mídia e do Centro de Treinamento Olímpico terem sido transferidas para a a Zona Portuária, a Prefeitura encontrou novas razões para forçar a Vila Autódromo a sair. Jane, entretanto, enxerga além dessas desculpas.

“Agora (que mudaram o Centro de Mídia para o Porto) eles criaram um perímetro de segurança ao redor do autódromo, que os moradores da comunidade não poderão cruzar durante os jogos”, ela contou para o RioOnWatch em 2011. “Nunca houve um assalto nos dias de corrida no autódromo (…) Eles querem deixar o povo meio bobinho, achando que a coisa já foi resolvida e que é pra baixar a cabeça. Eu não descanso não, vou até morrer”. Mais recentemente, Jane e outros moradores e lideranças aparecem no documentário Eu Fico, contando a situação atual da comunidade.

Bárbara Nascimento – Vidigal, Zona Sul

Barbara Nascimento

Bárbara Nascimento foi nascida e criada no Vidigal. Ela é professora de Português e Literatura numa escola estadual e vem coletando informações sobre sua comunidade com o intuito de preservá-la. Na sua visão, a ocupação do Vidigal pela classe média e estrangeiros criará um êxodo e destruirá a identidade da favela. Como ativista e acadêmica, ela luta pela preservação da cultura da favela e argumenta contra a apropriação cultural e a gentrificação.

“A pessoa quando conhece seu lugar se reconhece como indivíduo”, ela disse em uma entrevista para O Globo traduzida e publicada em inglês pelo RioOnWatch. “Aqui, uma população já marginalizada corre o risco de perder o sentido de pertencimento: o seu lugar está sendo negado. A memória pode ensinar que há uma história, uma identidade, que é preciso ficar, combater a gentrificação, e que isso inspire outros povos”.

Giordana Moreira – Nova Iguaçu, Baixada Fluminense

Giordana

Giordana Moreira se interessou por graffiti depois de descobrir o primeiro Encontro Nacional de Grafiteiras em 2005. Ela percebeu que ser uma grafiteira era uma ação radical, uma vez que esse é um campo composto majoritariamente por homens. Unindo forças com a ONG ComCausa, o grupo Mulheres Grafiteiras para a a Lei Maria da Penha nasceu para lutar contra o machismo e promover o debate sobre questões de gênero. Giordana é também membro fundador da Roque Pense, um grupo que patrocina workshops, fanzines, rádios e eventos musicais de rock nascidos de uma parceria entre Artefeito e Let’s Pense!, uma fanzine de poesias. “Pense” é a abreviação de “Para uma educação não sexista”. Giordana constantemente estimula o protagonismo feminino em campos tradicionalmente masculinos e esse ano, para o Dia Internacional da Mulher, seu grupo Roque Pense organizou um festival de bandas compostas apenas por mulheres em Duque de Caxias que também englobará debates sobre violência contra as mulheres e workshops.

Para Giordana, a participação das mulheres nos movimentos sociais é essencial. Diz ela: “Sem a participação das mulheres, a humanidade, solidariedade e organização se perdem. É errado responsabilizar as mulheres pela saúde mental de suas famílias, mas isso também força as mulheres a desenvolverem estas ferramentas muito mais que os homens”. Veja um vídeo produzido por RioOnWatch retratando Giordana em 2012.