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Durante Celebração pela Medalha de Ouro, Ativistas Lançam Campanha #FomeDeViver

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Pouco depois das 20h do último sábado, 20 de agosto, enquanto milhares de fãs reunidos no Boulevard Olímpico, na Região do Porto do Rio, começavam a celebrar a vitória pela medalha de ouro no futebol, um grupo de cerca de duas dúzias de ativistas promoveram uma campanha em protesto à violência policial contra moradores de favelas durante as Olimpíadas.

O grupo multi-geracional, composto por ativistas de toda a cidade, subiu na base de uma das colunas da Praça Mauá e desenrolou uma grande faixa laranja reluzente em que se lia “Com quantos corpos negros e favelados se faz uma Olimpíada?” Os organizadores se revezaram discursando em um megafone para explicar o propósito da ação e chamar a atenção para a violência que afeta suas comunidades.

“Este é um ato simbólico em resposta à repressão da população durante as Olimpíadas”, disse um dos ativistas, um jovem de 24 anos da favela de Acari, na Zona Norte, que pediu para permanecer anônimo. “A ideia não é responder à violência com mais violência. Nós esperamos que mais pessoas se juntem a nós e se mobilizem.”

Os ativistas permaneceram na base da coluna por cerca de dez minutos, tempo suficiente para pessoas que passavam perto deles tirarem fotos e gravarem vídeos, e para a faixa aparecer ao fundo da transmissão de TV exibida no telão da praça.

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Os organizadores planejaram estrategicamente a ação para coincidir com o fim do jogo, quando a ação teria o máximo de impacto e visibilidade, estando de frente a milhares de pessoas reunidas no Boulevard. Enquanto os minutos finais do jogo entre Alemanha e Brasil corriam, eles conseguiram passar pela multidão que se acotovelava e então permaneceram ao redor da coluna por aproximadamente 40 minutos a mais, conforme a partida ia para a prorrogação e depois para os pênaltis.

“Nós estamos aqui neste momento porque é tempo de Jogos Olímpicos, e o Boulevard Olímpico tem a maior concentração de pessoas”, disse um participante de 27 anos da Vila Isabel, que se descreveu como um apoiador da campanha. “O espaço também é significativo, é um espaço simbólico pelos projetos e as obras realizadas aqui, e também pelas remoções na Zona Portuária”.

A multidão ao redor da faixa parecia, em sua maioria, demonstrar apoio, pois interrompiam as comemorações e os abraços para dar espaço para a faixa, tirar fotos e gravar vídeos. Enquanto um pequeno grupo de homens gritava em desacordo com os manifestantes, outros aplaudiam a ação.

O ato coincidiu com um protesto similar no estádio do Maracanã, onde estava acontecendo a disputa pela medalha de ouro. No estádio, Carlos da Silva Souza, pai de um dos quinze jovens assassinados pela polícia em Costa Barros em novembro de 2015, exibiu uma faixa mostrando os rostos dos cinco rapazes, em que se lia: “Rio, há 450 anos campeão olímpico de assassinatos da juventude pobre negra”.

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Antes da ação na Praça Mauá, alguns participantes estavam apreensivos com uma potencial resposta da polícia.

“É proibido manifestações dentro dos eventos e dos espaços Olímpicos”, disse o ativista de Acari. “Nós estamos quebrando essa regra, então espero que seja tranquilo. Não quero confrontos com ninguém”.

Um grupo de cerca de 16 agentes monitoraram os ativistas conforme eles se reuniam e planejavam a ação, mas não havia polícia por perto quando o protesto ocorreu.

A ação marcou o ponta pé inicial de uma nova campanha por ativistas da favela, organizada sob o slogan #FomeDeViver. Na semana do evento, os organizadores postaram um vídeo no Facebook em protesto à violência policial em curso contra moradores de favelas. O vídeo explica porque eles tinham “fome de viver” e encoraja apoiadores a criar e a compartilhar seus próprios vídeos.

A campanha #FomeDeViver foi difundida e apoiada pelo Mutirão Rio2016, um coletivo de mídia independente latino-americano voltado para reportar e trazer maior visibilidade ao impacto social das Olimpíadas do Rio.

Ativistas da ação de 20 de agosto declararam que eles estavam participando como cidadãos individuais ou representantes de suas comunidades, e não em nome de organizações da sociedade civil, das quais alguns são afiliados. O evento recebeu apoio nas mídias sociais por parte de diversas organizações, incluindo o Fórum Social de Manguinhos e o Fórum de Juventudes do Rio de Janeiro.

Na página do evento no Facebook, os organizadores determinaram três objetivos principais para a campanha: o fim imediato das operações policiais nas favelas, a interrupção do uso de veículos blindados e helicópteros, e a reparação dos danos causados pela polícia.

A postagem chama atenção especificamente para a escalada da violência policial nas favelas de Acari, BorelCantagaloComplexo do AlemãoComplexo da MaréCidade de DeusManguinhos e Serrinha. Moradores e organizações de mídia comunitárias documentaram numerosas operações policiais durante as duas semanas das Olimpíadas, com relatos de tiroteios emergindo quase diariamente de algumas comunidades.

14067680_681797145292239_3121823954375730573_n“Nós queremos que as pessoas saibam o que está acontecendo dentro das favelas durante os Jogos Olímpicos”, disse o ativista de Acari. “Normalmente tem mais calma durante os megaeventos, mas tem muita violência em favelas específicas durante os Jogos.”

“Os megaeventos não são para o povo“, acrescentou um participante de Vila Isabel. “A ideia é dar voz às pessoas que estão sofrendo. #FomeDeViver levanta essa questão, de que pessoas estão morrendo.”

Depois que a ação foi concluída, os ativistas se reuniram ao lado da multidão que dançava para debater sobre o ato. Antes de se dispersarem, os organizadores prometeram que mais ações aconteceriam no futuro próximo.