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Julho Negro Dia 4a: Solidariedade Internacional Quanto à Militarização das Vidas na Palestina, no Haiti e no Brasil

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Como parte da semana do Julho Negro, representantes do movimento Mães de Maio, Mães de Manguinhos, Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência e de resistência do Haiti e da Palestina se reuniram para discutir militarização e violência estatal em escala global e como movimentos de resistência podem crescer juntos e compartilhar estratégias. Gizele Martins, jornalista comunitária do jornal O Cidadão na Maré, apresentou a discussão, descrevendo os gastos desproporcionais do Estado com policiamento, armas e intervenções violentas em comparação com serviços públicos em sua comunidade.

Soraya Misleh, uma refugiada palestina de segunda geração no Brasil e autora de Al Nakba – um estudo sobre a catástrofe palestina, traçou paralelos entre eventos nas favelas do Rio e em territórios palestinos ocupados. Misleh é a diretora de comunicação e imprensa do Instituto da Cultura Árabe (ICArabe) em São Paulo. Ela descreveu o deslocamento e a tortura sofridos pelos palestinos impingidas pelas autoridades israelenses, mantendo no lugar um estado fortemente militarizado e segregado, que também exportou armas e policiais treinados para o Brasil, armas usadas contra moradores de favelas no Rio. Misleh comparou a arquitetura dos campos de refugiados, sua realidade fortemente policiada, com as realidades das favelas ocupadas pela polícia no Rio. O encarceramento em massa e as condições de prisão desumanas também são experimentados na Palestina e no Rio. A militarização da polícia nas favelas do Rio como parte da ‘Guerra às Drogas‘ na cidade pode estar ligada às estratégias de poder usadas por Israel para manter o que a ONU reconheceu como um estado de apartheid. Misleh argumentou que ambos os estados estão usando a militarização sob a justificativa da segurança essencialmente para cometer genocídio contra suas populações indesejadas. Ela enfatizou a importância de fazer essas conexões transnacionais como uma maneira de entender como a militarização da vida das pessoas é parte de uma luta global.

Os laços financeiros e estratégicos entre o exército israelense, a polícia do Rio de Janeiro e a polícia dos Estados Unidos também foram discutidos em detalhes–essas organizações de segurança são conhecidas por trocar armas, tanques e estratégias de treinamento. O fato de que “são as mesmas armas”, explicou Misleh, para ela ressalta ainda mais que a realidade é “apenas uma luta”.

Clarens Therry, um imigrante haitiano e líder da União Social dos Imigrantes Haitianos (USIH), discutiu o importante legado da Revolução Haitiana, e como o Haitianismo–a derrubada das potências coloniais por uma revolta de escravos–tem sido temida pelo governo brasileiro, pois desafia muitos mitos populares baseados em raça. Ele invocou a base de muitas democracias, os princípios franceses de “liberdade, igualdade e fraternidade”, explicando como os próprios governos que se formaram a partir desses princípios estão negando aos cidadãos o “direito à vida”. Therry desafiou outros aspectos da academia e a normalização de ideais coloniais–ele criticou o cego respeito por figuras históricas e caracterizou o individualismo como uma “doença” trazida pelas sociedades europeias. Com base no precedente haitiano, ele explicou, de outra forma, que uma revolução, é possível: “fizemos uma revolução e faremos uma revolução aqui no Brasil também”.

Débora Maria da Silva, fundadora e organizadora do Mães de Maio, discutiu a necessidade de pesquisadores de movimentos de resistência falarem diretamente com as mães, como contadoras de histórias do dia-a-dia, e que a distância entre academia e a realidade desses movimentos impedem que a pesquisa seja eficaz.

Outros ressaltaram a importância da inclusão da resistência indígena na resistência coletiva. Gizele Martins refletiu sobre sua experiência de intercâmbio na Palestina e a importância de viajar para entender as lutas dos outros e aplicar esse conhecimento no país de origem. Ela também se perguntou como os movimentos globais poderiam ajudar uns aos outros, o que abriu o espaço para uma conversa frutífera. Na atmosfera emocional, os participantes expressaram como, além de semelhanças históricas e políticas, havia um senso mais imediato de identificação e solidariedade com as vítimas globais da violência estatal. O evento concluiu com um sentimento de força e união, pois como Therry afirmou, “um povo unido é um povo que vence”.