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A História de Dona Maria

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Maria Garcez mostrava-se transtornada ao presenciar trabalhadores da Prefeitura demolindo a sua casa na Favela do Metrô no dia 04 de novembro de 2010. Sua imagem está presente no primeiro relatório do RioOnWatch sobre a remoção brutal de sua comunidade para a suposta construção de um estacionamento para a Copa do Mundo de 2014 do estádio Maracanã, embora até hoje nenhum projeto oficial para o local tenha sido apresentado.

Dois anos depois, nos reunimos com Dona Maria, 65 anos, no apartamento que ela divide com sua neta em sua nova moradia,  para onde foi realocada em substituição da sua residência original na Favela do Metrô pelo programa “Minha Casa, Minha Vida”, localizada no distante bairro de Cosmos na Zona Oeste da cidade. Dona Maria, que vive no Rio de Janeiro desde fevereiro de 1973, mas é natural de São Luiz do Maranhão, fala emocionada sobre sua experiência.

Onde  a senhora morou quando chegou no Rio?

Morei em Bonsucesso, depois fui transferida de lá e vim para Santa Cruz para a Avenida Antares, mas eu saí daqui por causa da condução. Nessa época eu trabalhava, agora não trabalho mais, aí eu passei a minha casa e fui morar num barraco no Morro da Pedreira lá em Acari. Depois, como tinha muita bandidagem lá, e tal, eu saí e fui morar de aluguel. Aí do aluguel é que seí e eu fui lá para aquele terreno na São Francisco Xavier [Favele do Metrô] de onde eu saí para vir para cá. Construí meu barraco. Com minha pouca força, sem ajuda de ninguém, eu que construí meu barraco.

Como era a sua casa na Favela do Metrô?

A minha casa era coberta de telha, de tijolo, sem emboço, tinha um piso assim meio chulé, era praticamente um barraco. Só que era de tijolo não era de tábua, era de telha, mas era um barraco. A água era muito precária, o esgoto precário, a luz precária, porque era tudo gato.

Eu morava 30 metros depois do viaduto. Quer dizer, era uma favela, cheia de ratos, esgoto entupido, cheio de lacraia, mas eu gostava de estar ali. Não sei explicar, mas eu gostava de estar ali. Eu acho que era porque eu estava no Centro, estava perto de recursos.

Como foi o dia da demolição?

Eu me senti lesada por causa disso. Porque eu fui burra, eu fiquei nervosa na hora que eles chegaram, eu fiquei desorientada.Tudo ficou enterrado naquele barraco. Toda a minha poupança, de merrequinha, tudo eu arranquei para enterrar naquele barraco. E saí de lá, deixei ainda esse quartinho cheio de material porque minha intenção era colocar uma laje. Meu material virou entulho. Eu tive esse prejuízo.

Como foi para a senhora essa mudança?

Foi muito, muito difícil porque eu morei ali 24 anos já chegando aos 25, praticamente 25 anos. E está sendo difícil até hoje, porque aqui a gente não tem estrutura nenhuma.

Quais são as dificuldades em morar aqui?

Aqui a gente só tem o Rocha Faria, que é cheio, é tumultuado. Tem a Clínica da Família – na semana passada um menino veio marcar uma consulta para mim para daqui a um mês! Tem UPA, onde uns atendem direito, outros não.

Sobre mercados, feiras, e sacolão, tudo isso a gente tem, mesmo um pouco distante. Lá na Favela do Metrô também não era dentro de casa, era também meio afastado, mas era mais perto do que aqui.

Nós não temos condução daqui para o Centro da cidade. Tem o trem, que anda que nem sardinha em lata. Nós temos aqui um ônibus de R$8 reais, um frescão que para aqui. Quando não, você pega o ônibus ou a van para Campo Grande, porque lá você tem ônibus para todo canto da cidade. Mas aqui é uma desgraça de ônibus. Isso aqui é uma calamidade pública de condução para a cidade.

Na semana que vem eu tenho médico lá em baixo, no Centro da cidade, eu vou ter que dormir na casa de uma conhecida que eu tenho lá na Tijuca para eu sair as 4h para pegar um número. Eu vou sair daqui de tarde, pegar o trem, saltar lá na Central, pegar o ônibus para a Tijuca, dormir lá para eu poder ir. Porque aqui não tem.

Condução e médico. O resto tudo bem. Nós temos água, nós temos luz, tem mercado, tem sacolão, tem peixaria, tem tudo que a gente quer. O problema todo é a condução e o médico.

Do que a senhora gosta em morar aqui?

Eu gosto muito da minha casa, porque eu realmente morava num barraco. Com o salário que eu ganho, que a presidente Dilma me paga todo mês $622 reais, eu não ia ter condições de fazer um apartamento desses. Gosto da minha casa. Esse palácio. Mas do local, eu não gosto. Se eu tivesse condições eu já tinha vendido meu apartamento, e já tinha ido embora para uma favela lá em baixo. Porque lá nós temos o hospital Sousa Aguiar, nós temos o hospital Salgado Filho, nós temos o Andaraí, nós temos o Barata Ribeiro. A condução é mais fácil. Há proximidade para o Centro da cidade.

Há gente de várias comunidades reassentadas no condomínio, como são as relações entre as pessoas?

Eu não tenho muito contato com esse pessoal. ‘Bom dia’, ‘boa tarde’ para algumas pessoas. Não tenho comunicação, intimidades. Não me queixo de ninguém porque eu fico dentro da minha casa, ninguém me pertuba, e eu não pertubo ninguém, para mim tá tudo bem.

Se pudesse voltar para Favela do Metrô ou para condomínio de Minha Casa, Minha Vida na Mangueira, a senhora iria?

Acho que não. Mesmo não gostando daqui, mas para lá eu não ia não. Já vou fazer 2 anos aqui, tô começando a me adaptar. Mas não é porque eu estou me adaptando que eu digo ‘eu morro de amores por isso aqui’. Não. Não morro de amores. Gosto da minha casa. Da casa eu gosto mas ainda não é minha, porque eu ainda não tenho escritura. Mas o Prefeito colocou a gente aqui, então eu posso dizer que enquanto ele não tirar a gente daqui é meu. Mas eu gosto da casa, como eu já falei e repito mil vezes, mas do local eu não gosto.