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7 Poderosas Mulheres Negras e Sua Política do Dia a Dia [PERFIS]

"Pra fazer o que eu faço tem que ter disposição"

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As entrevistas realizadas por Thamyra Thâmara de Araújo e Marcela Lisboa foram originalmente publicadas pela Agência Naya no Medium aqui. Para ouvir as entrevistas na íntegra, clique aqui.

“Pra fazer o que eu faço tem que ter disposição.” A frase pode parecer arrogante aos ouvidos despreparados, mas quando a gente fala sobre mulheres negras, ela se torna autoexplicativa. Sabe aquela mulher comumente chamada de “tia da cozinha”? Ou quem sabe aquela que caminha o dia inteiro vendendo seus quitutes? Talvez aquela mãe de santo a quem você recorre quando o desespero bate? Ou aquela mulher que você insiste em não chamar de mulher?

Nossa homenagem é relembrar que para ser e fazer o que elas fazem para manter toda a humanidade de pé é preciso ter disposição.

Ou você pensa que é fácil carregar o mundo nas costas? Aqui não tem Indiana Jones. São elas, mulheres negras, que fazem política sem fazer e geram vida em meio a morte. Como disse Conceição Evaristo, “haveria de sempre umedecer seus sonhos para que eles florescessem e se cumprissem vivos e reais. Era preciso reinventar a vida”.

Agradecemos Adriana Evangelista, Taísa Machado, Lucia Cabral, Mônica Francisco, Thais Ferreira, Joana Pinheiro e Mãe Aparecida pelo compartilhar de histórias.

Nós nos levantamos.


Mãe Aparecida de Xangô: A mulher da casa de portas abertas

Quando Mãe Aparecida começa a falar, a vontade é de ficar horas escutando a sabedoria de quem sabe para que veio ao mundo. Filha de Xangô e Oshun, da nação Efon cuida da Casa Ile De Xango Ayra. Ela é mulher, filha, mãe, amiga e parceira que se comunica com o afeto e sempre a partir do compartilhar. Uma mulher que diz ter a casa sempre de portas abertas e que deseja ser lembrada como alguém que amava o santo.

Eu compartilho quando estou sentado em casa e alguém bate a porta e eu pergunto se precisa de ajuda.”

A mais velha de cinco irmãos, Mãe Aparecida cresceu no Morro de Santo Antônio e afirma ter orgulho de ser negra, candomblecista e moradora de Nova Iguaçu, onde criou seus filhos.

Ela conta que sua mãe era uma mulher forte na casa de umbanda mas se tornou evangélica alguns anos antes de morrer.

Minha mãe sempre foi uma pessoa muito inteligente e cabeça e nós chegamos um consenso que não iríamos brigar por causa de religião.”

Quando Aparecida era pequena frequentava o centro junto com a mãe. Depois a mãe se converteu ao evangelho e levou ela junto. Quando cresceu, decidiu que queria se envolver com o candomblé. Sua mãe, que nutria o desejo de cantarem juntas na igreja acabou cedendo. No fundo, só desejava que a filha fosse feliz. Bem, ela conseguiu.

Nós éramos muito francas e não tínhamos mentira uma com a outra. E em algumas coisas eu exigia dela mais respeito. Ela amava Deus, eu também amava Deus então amávamos nós duas o Deus.”

Enquanto Mãe Aparecida nos dava o prazer de ouvir sua história, também nos contou do que acredita no futuro as mulheres vão ocupar lugares muito importantes dentro deste Brasil. E lembrou que hoje quando nasce uma menina ela não escuta só que tem que cozinhar, ela também escuta que tem que estudar. Para ela, enquanto povo preto, precisamos saber verdadeira da nossa história para acabar com a escravidão.“ A gente tem que gritar muitas vezes, a maioria das vezes para sermos ouvidas. Porque se a gente não peitar … a verdade é essa… politicamente falando eles não querem nos ouvir’’, pontua.

Nós que somos as parideiras devemos orientar nossos homens a serem mais carinhosos, espertos, que homem bobo ninguém quer, e com uma mente mais saudável.”

Quando não está dividida entre seus filhos de santo e a caridade, Mãe Aparecida gosta de passear com seu parceiro de vida. “Gosto muito de planta, temperos, folhagens, flores, mas também gosto de me exibir eu sou meia escandalosa. Eu sou uma mulher de Santo mas todas as mulheres tem vaidade”.


Monica dos Santos Francisco*: A nega do Borel

Embalada pelo ritmo do funk durante a adolescência, ela ia aos bailes para dançar e nem pensava nos possíveis namoros porque odiava a sensação de estar presa. Criada por sua avó, começou a trabalhar aos 14 anos numa fábrica de tecidos mas não parou de estudar. Das lembranças mais gostosas da infância, os banhos no Rio Maracanã, a Folia de Reis e as delícias da culinária nordestina. Esta, em especial, ela nutre carinhosamente até hoje. Toda sexta-feira santa abre as portas de casa para o clássico vatapá com moqueca de peixe lá no Morro do Borel.

É desse lugar que eu me constituo como pessoa e começo a entender o mundo.”

Aos 16 anos engravidou do companheiro. Queria ser mãe. Saiu da fábrica e seguiu por todos os trabalhos precarizados destinados a uma mulher negra: empregada doméstica, lanchonete, fábrica de prata, empacotadora de supermercado e até aqueles clássicos “compro ouro” na Praça Saens Peña. Qualquer trabalho digno valia para ajudar a família e dar conta de Diego, seu filho querido.

Aos 18 anos se converteu e entrou na Igreja Universal. “Eu acredito na cura divina, eu acredito na cura pela fé, eu fui curada”, comenta. Logo se tornou ativa e começou a assumir responsabilidades coletivas. Aos poucos foi se destacando e quando deu por si já era uma das jovens lideranças. As leituras não eram problema, já que sua vida fora cercada por livros. Voltou a estudar a noite porque entendia que para melhor de condições, era preciso educação. Questionadora por natureza, não conseguiu lidar com as contradições internas daquela denominação por muito tempo e acabou saindo.

Não concordava teologicamente.”

Mônica sempre fez política, mesmo quando não sabia. “Eu sempre sentia que eu era uma pessoa muito da rua, uma pessoa de tá auxiliando o outro de alguma maneira”, reflete. Durante as chuvas de 1988 que derrubaram diversas favelas do Rio, ela se percebeu ajudando as famílias do morro do Borel. Entre muitas mortes e de uma tragédia colocada em seu território, ela viu a necessidade de agir.

Não tinha essa elaboração de entender que aquilo era uma atuação política, mas ali eu vi que eu era uma pessoa do coletivo.”

Lugares formam pessoas, mas pessoas transformam lugares. Com ela não seria diferente. Sua história se confunde com o perfil daquelas que permanecem de joelhos para que seus filhos fiquem de pé. Depois de ler “As lutas do povo do Borel” ela despertou o desejo de dar continuidade àquelas lutas. De lá ajudou na formação da RCB — Rádio Comunitária do Borel e, de lá, seguiu para a Agenda Social Rio, ao lado de Betinho.

Desde então ela não para. Voltou a desenvolver propostas de economia solidária a partir daí. Entre falas, cuidados e vivência, ela abriu seu ponto de oração com outras mulheres. Há dois anos atua como pastora, mesmo já sendo considerada por seus fiéis. Como mulher negra ela afirma “eu vejo as mulheres negras no centro de uma reapropriação”. Nós também, Mônica. Nós também.


Lúcia Cabral: A mulher que dedica a vida a serviço da comunidade

Lucia Cabral no RG, mas para os filhos do Complexo do Alemão é Tia Lucia mesmo. Ela que desde pequena queria mudar realidades, aos 51 anos se vê dirigindo o Educap — Espaço Democrático De União, Convivência, Aprendizagem e Prevenção no Complexo do Alemão e buscando novas parcerias para ampliar o alcance do seu trabalho.

Se a gente trabalha em rede dentro da favela, a gente é mais potente que lá fora.”

Lúcia carrega em sua trajetória memórias de ações e realizações à serviço da comunidade. E durante a conversa aproveita para repetir a frase que ouvia de seu pai: “a gente cresce para lutar contra a desigualdade”. Tantas memórias, diz ela, “não me trazem revolta de violência, mas uma revolta de resistência” para lutar contra as desigualdades. “Não dá para aceitar e crescer aceitando toda essa carga que jogam para dentro da favela. Até porque a pobreza gera grana para quem está lá em cima no patamar mais alto”, afirma.

Tia Lúcia nutre um amor profundo pelo Complexo do Alemão por ele ter sido o lugar que acolheu sua família e ela quando criança. O lugar que seus irmãos nasceram, que ela constituiu família e onde tem todas as memórias de infância. “Eu cresci no funk. Olha, eu casei com o meu marido e conheci ele no baile funk”, lembra. Ela é capaz de mencionar datas, ruas, nomes e pessoas que passaram pelo Alemão. Seus olhos brilham a lembrar do Baile da Paranhos, Folia de Reis, as quermesses, o Bloco do Pereira e toda vida cultural que a cercou na infância e adolescência. Talvez esta seja sua força motriz. Ver o Alemão grande de novo, mesmo quando o mundo insiste em afirmar o contrário. “O governo parece que trabalha para destruir na cultura da favela”, questiona.

O nome favela não é sinônimo de coisa ruim. Ela é a natureza, o meio ambiente. Ela é a clorofila que nos dá vida. E por que enxergam ela como sinônimo de coisa ruim?”

Uma coisa é certa. Se o governo trabalha para destruir, Lucia emana vida por todos os lados. Já dirigiu creche, quadra de escola, deu aula para crianças e adultos, gerenciou bar, cinema e até movimentou campanha de prevenção no baile. Desde 2008 está a frente do EDUCAP e a cada dia busca se renovar e atentar para o futuro que a favela aponta.

Porque essa tecnologia, que é a tecnologia humana junto com a tecnologia da máquina faz girar histórias, girar o crescimento e o empreendedorismo.”

Se fora de cada ela é quem cuida e acolhe aqueles que precisam, em casa ela é cuidada pelo Marcos, seu marido. “Ele faz massagem nos meus pés quando eu chego muito cansada e cozinha para mim”, conta. Sua família permanece sendo sua principal base de sustentação e amor. Além do bom humor e do jeito leve de levar a vida, ainda que num contexto de morte, é o que a ajuda a não cair em depressão.

A conversa se encerra com Lúcia nos convocando a construir para além do que a geração dela foi capaz de construir. “A estrada vai indo e crescendo. Quem fica vai construir”. E completa, “eu acho acho que a gente tem que enxergar o futuro com todo mundo junto. Com a família da favela bem sucedida, feliz e alegre e com essa potência valorizada mundialmente”. Por essas e outras que, pra ela, chamar de tia não é problema. Todo mundo aqui acaba sendo um pouco da família.


Adriana Evangelista: A mulher que vai lá, pega e faz acontecer

Quando você olha para Adriana é possível ver uma mulher que desde sempre, pela dureza da vida, teve que ser independente, mas que soube transformar cada necessidade em oportunidade. Adriana teve a mãe diagnosticada com câncer quando tinha 10 anos de idade e desde nova teve que assumir responsabilidades. Na ausência da mãe que trabalhava, ela corria para a cozinha fazer o que gostava de comer.

Eu não gosto de depender, quando eu quero uma coisa eu corro atrás.”

Mulher com um sorriso gigante e um vozeirão, não passa despercebida por onde passa, sempre rindo e cantando. Se de um lado ela é rocha, do outro ela é rio. Quando chora, desabafa. Quando fala, estremece. Quando sonha, flutua.

Eu gosto de colocar tudo em pratos limpos.”

Adriana é uma empreendedora, dona do seu próprio negócio, no ramo da alimentação. Vende empadas pelas ruas da Zona Norte do Rio de Janeiro parodiando músicas de funk. Ela criou uma metodologia própria de trabalho e encontrou na criatividade e na palavra sua forma de bancar ser líder de si mesma. Mas não foi sempre assim, no trabalho percebeu que sempre a colocavam no lugar da auxiliar. Seu primeiro emprego foi como auxiliar de costura aos 16 anos, depois trabalhou como auxiliar de serviços, depois vendeu cosméticos, até resolver ter seu negócio.

Eu era sempre auxiliar, auxiliar, eu era muito mandada. E não aceitava a forma como me mandavam. Eu acho que quando você tem vocação para liderar, para líder (..)”

Adriana acabou enxergando em si mesma o poder da sua voz. Sua vizinha Eunice sugeriu fazer empadas, outro sugeriu o uso do jaleco, e a história daí para frente ela fez acontecer. Cada vez que cozinhava as empadas ouvia as brincadeiras das crianças, as músicas que cantavam e resolveu remixar os jargões dos vendedores da rua com os funks cantado nas favelas. E foi assim que ela desenvolveu um repertório e estilo de venda só dela.

Em dez anos vendendo empada, Adriana já teve participação especial na novela Salve Jorge, já foi na Ana Maria Braga e sua história já circulou pelo mundo afora. Mas nada disso fez com que ela deixasse o cuidado com os seus clientes de lado. Ela continua sendo a mulher que quando chega na rua todo mundo vai olhar, que prepara empada com todo carinho, que chega em casa tem roupa pra lavar, marido para cuidar e que não abre mão de acordar mais tarde no seus dias de descanso.

Tem como é só a gente colocar a cabeça pra pensar (…) Eu procuro fazer do limão uma limonada.”

Para ela, a mulher vai, pega e faz porque não dá para ficar esperando os homens terem iniciativa. Ela teve como referência mulheres fortes, provedoras e lembra que mulher sempre teve mil coisas para fazer: cuidar da casa, do filho, do marido e ainda trabalhar fora. “Mulher hoje dirige caminhão, faz obra, estuda”, ressalta. E é acreditando nessa força feminina que Adriana aposta que no futuro as mulheres terão muito mais possibilidades. “A mulher vai ter mais possibilidades e condição no futuro sim. Vai estudar sim,vai ser dona do seu negócio sim”, diz.


Joana Pinheiro: Mulher que põe o pé na porta e diz ‘cheguei’

Joana é jovem, mulher trans, 150bpm que tá sempre no corre enquanto atravessa a cidade entre a Baixada Fluminense, o Complexo da Maré, do Alemão e o Centro do Rio de Janeiro. Produtora, fotógrafa, social mídia, articuladora social e futura jornalista, ela não é, mas vai sendo e se transformando em tantas outras pelo trabalhos onde passa: Observatório de Favelas, Bela Maré, Baphos PeriféricosQuerendo Assuntos e Canal Plá.

Há três anos Joana bancou o processo de transição de ser quem ela realmente é. “Quando paro para olhar para trás vejo que sempre fui a Joana. Essa explosão já devia ter acontecido há muito tempo e ninguém deixou. Agora eu quero que aconteça e vai acontecer”, comenta.

“Eu quis sair daquele lugar que foi me imposto a vida inteira.”

Ela é fruto do seu tempo e faz parte de uma geração que não quer mais se esconder. Joana colocou o pé na porta e foi. O que ela colhe hoje é fruto de muitas que chegaram antes e o futuro que outras colherão. Será o que ela ajudar a plantar. “Consigo imaginar o reflexo do que estamos fazendo agora daqui a vinte anos”, ressalta. Mas enquanto o futuro não chega, ela faz no presente.

“Está tudo um caos porque as coisas estão mudando. Ainda não vemos o espelho da diversidade, mas ta evoluindo.”

Joana sabe que ser uma mulher trans é difícil no Brasil, com dados tão alarmantes (uma pessoa trans morre a cada 48 horas por aqui. Além dos índices sobre mercado de trabalho e expectativa de vida), ela se preocupa toda vez que vai sair de casa. Que roupa usar? Maquiagem ou não? Por outro lado, ela teve o privilégio de uma família acolhedora, que fez de todo seu processo de mudança acontecer da forma mais leve possível. “A minha mãe e a minha família me desabam. É o que eu tenho de mais precioso”, afirma. O direito ao afeto entre pessoas LGBTQ+ tem sido uma conquista diária, nosso desejo é contribuir para a construção de um mundo, onde mais Joanas possam simplesmente ser.


Thais Ferreira*: A mulher afrontosa dona do mundo todo

Thais foi aquela criança que usava uma meia de cada cor, adorava fazer careta e fazer bico, só por conta da zoação dos amigos. A menina superdotada que dormia na escola porque terminava as tarefas antes de todo mundo e que desmentiu a professora em sala de aula porque quem tinha descoberto o Brasil não era Cabral. “Minha mãe ia todo dia na banca de jornal e comprava VHS para nós. Vídeos do Discovery (Channel), porque eu era uma criança que perguntava muito”, lembra.

Nessa época ela era considerada a criança do cabelo e gostos estranhos por ter uma forma de pensar diferente. Mas nada disso a afetava, pelo contrário, desde criança o estranhamento a fascinava. Ser o ponto fora da curva foi onde ela encontrou a sua potência. A menina que usava aparelho externo nos dentes na época da escola virou a dona de um sorriso lindo. Gosta de chás, banhos com ervas, de brincar, escrever música, poemas e que recorre ao escuro e ao silêncio no quarto na hora de se conectar consigo mesma.

Eu já sabia que queria ser estranha e esse meu estranhamento as pessoas traziam como afronta.”

Thais também nos contou que se sentiu extremamente afrontosa quando seu primeiro filho vivo nasceu. Ela que tinha vindo de uma cesariana mal sucedida, que havia perdido um filho pôde, enfim, ressignificar o momento de dar a luz. “Quando Athos nasceu foi a felicidade mais plena que vivi, senti uma dor maravilhosa, que era a dor da vida”, relembra.

Eu nao sei se tava ardendo, se tava molhado, se tava chovendo, mas tava saindo vida de mim.”

Mesmo depois de uma experiência de morte e do medo de ser uma mãe super protetora, quando seu filho nasceu ela viu uma vida para além da sua. Ali o medo foi se dissipando. Quem conhece Athos e João, filhos de Thais e Douglas, sabe o quanto eles são autônomos. Essa autonomia se deve a uma educação que entende que a primeira infância é uma fase primordial no desenvolvimento do ser humano. Não é atoa que Thais além de mãe é criadora do MÃE&MAIS, que oferece serviços e informações sobre saúde de forma eficiente e digna para mulheres-mães de todas as idades, e crianças na primeira infância.

É preciso entender sobre fertilidade e florescimento de gente. E entender que isso só faz polinizando e não dá pra ser sozinho. A gente precisa ser um enxame.”

Thais é uma mulher que move estrutura e gera vida sempre a partir do coletivo. Ela acredita no poder de realização concreto das mulheres. Para ela, o futuro da mulheres é um futuro em rede capaz de segurar o todo. “Eu acho que o futuro das mulheres é uma rede, muito nossa, muito especial, muito específica, onde a gente entende que não precisa acender só uma luz lá no meio a gente precisa ter vários pontos de luz e acesso em todos os lugares”.


Taísa Machado: O Brasil que deu certo

Taisa é dessas mulheres-ventania, por onde passa leva tempestades de transformação. Atriz, professora de dança e fundadora do AfroFunk, aos 28 anos ela consegue se compreender como uma mulher de seu tempo, mesmo um tanto distante das expectativas. É isso. Taisa não segue padrões. Ela os cria. Crescida na baixada fluminense, ela relembra de sua infância com carinho. “Você tinha casa da Barbie? Porque eu tinha”, diz isso porque muitas das vezes é lida como favelada devido suas influências musicais e seu jeito de falar.

Tem gente que gosta de funk. Eu gosto do baile funk. Entendeu a diferença?”

São muitas histórias em uma só pessoa, suas maiores influências vem dos homens de sua vida: seu pai, seu tio Luizinho e seu avô. De seu pai, herdou a contação de histórias e o gosto pela atuação. Ele dizia coisas como “você tem que falar do seu jeito pra eles se lembrarem que você é você”, ela conta. O tio foi o primeiro a presenteá-la com livros e falar abertamente sobre homens e sexo. Já seu avô foi aquele que trouxe as palavras que guarda para sempre.

Eu sou muito fã dos homens da minha família. E durante muito tempo eu fiquei sem graça de falar disso justamente por trabalhar num meio em que só se fala de mulher.”

Logo cedo aprendeu que a vida não seria feita somente de boas conversas com seus mais velhos, livros e filmes. Aos 14 perdeu o Galo, um amigo vítima de bala perdida. Na época ela achava que a violência parecia uma alternativa mais fascinante que a própria vida. Mas depois da morte do seu amigo, começou ali uma relação de amor e ódio com o funk.

“Cada caminho, uma escolha: você quer? Você pode? Você banca?”

Lá pelos 15 anos seu velho avô a chamou para uma conversa que jamais esqueceria. Naquele momento, seu Machado decidiu apontar para ela as responsabilidades de quem tinha o desejo de viver da rua. Ali não bastava querer, era preciso saber se podia. E em caso de resposta positiva, se ela ‘bancaria’ todas as possibilidades a seguir.

Hoje ela entende que precisou (ou ainda precisa) percorrer um pequeno-longo caminho rumo à maturidade. Hoje ela até consegue admitir que também é uma pensadora e confessa que parou de sentir vergonha por escrever certo e por ser inteligente.

“No certo pelo certo e sem aceitar covardia: ou seja, o Brasil que deu certo.”

A arte veio como um carinho da vida. Acostumada a driblar o destino, percebeu que herdou a boemia artística da família. Seu circo mambembe foi o “Tá na Rua”, dirigido por Amir Haddad. Lá se entregou de vez para as possibilidades que a criação artística permitia e conheceu suas melhores amigas, daquelas que fazem rir da barriga doer. “Já fumou um baseado com a Renatinha?”, relembra.

Entre as muitas gargalhadas e o sorriso aberto havia uma fissura: Adriano Cor, seu melhor amigo, assassinado por homofobia, teve seu corpo encontrado nu boiando em um rio cinco dias depois a agressão. “Eu posso dizer que era uma pessoa extremamente feliz até esse momento”, ela conta. Tragédias anunciadas no país que mais mata pessoas LGBTQ+ no mundo. A ansiedade e a depressão anunciaram sua chegada neste momento. No intervalo de um ano perdeu o tio, seu melhor amigo e o pai.

Todos os questionamentos sobre o uso político da arte, mas seu pouco retorno financeiro vieram neste momento. Era preciso questionar a forma das coisas, mas sobretudo seu preço.

Me percebi fazendo peças incríveis, mas tendo que pedir o dinheiro da passagem para minha mãe. Foi aí que vi que esse tipo de teatro não era para mim.”

Hoje seu maior sonho é ser reconhecida pelo que faz. Neste movimento, enxerga mais uma vez suas primeiras referências apontando o caminho. Lembra, sobretudo, de seu avô. E encerra “tudo bem, vamos derrubar o capitalismo? Um dia, mas antes eu preciso do meu dinheiro no bolso”.

*Desde a data da publicação original, Mônica Francisco foi eleita deputada estadual e Thais Ferreira é a primeira suplente, ambas pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).