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LIVE ‘Como Falar de Coronavírus nas Favelas?’ Reúne Comunicadores Comunitários [VÍDEO]

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Esta é a nossa mais recente matéria sobre o novo coronavírus e seus impactos sobre as favelas e também da série LIVES Covid-19 nas Favelas.

No dia 20 de abril, a Comunidades Catalisadoras (ComCat)* através da Rede Favela Sustentável (RFS) e do RioOnWatch convidou cinco lideranças e comunicadores comunitáriosque estão tendo êxito no enfrentamento da pandemia da Covid-19 nas favelas do Rio e de São Paulopara realizarem a LIVE interativa: Como Falar de Coronavírus nas Favelas? No total, 55 pessoas participaram do encontro.

Os convidados especiais foram: a comunicadora Gizele Martins, da Frente de Mobilização da Maré na Zona Norte; agente ambiental Geiza de Andrade do Gabinete de Crise da Vila Kennedy na Zona Oeste; comunicador Rafael Oliveira do Coletivo Favela Vertical na Gardênia Azul, Zona Oeste; educadora popular Ilaci Oliveira da Cooperativa Transvida de catadores na Vila Cruzeiro, Zona Norte; e líder Gilson Rodrigues da comunidade de Paraisópolis em São Paulo e do G10 das Favelas.

O evento foi desenhado por conta de dificuldades e demandas que sugiram entre mobilizadores comunitários da Rede Favela Sustentável ao tentar responder à crise do coronavirus nas suas comunidades. Os cinco palestrantes falaram sobre estratégias que estão dando certo em suas favelas: para informar, se comunicar e mobilizar a comunidade frente à pandemia do coronavírus.

Os palestrantes já eram experientes neste tipo de atuação social e em comunicação comunitária. Esse conhecimento foi o ponto de partida para que eles adaptassem rapidamente o que já sabiam para a mobilização de enfrentamento à Covid-19. Mediante a crise, lideranças que atuam nas áreas de cultura, comunicação, educação, trabalho e renda, e meio ambiente, entre outras, todas redirecionaram suas prioridades para focar na prevenção e mitigação dos impactos da Covid-19. Na ausência do Estado, como sempre tem sido, mais uma vez é a sociedade civil das favelas que está na linha de frente da defesa e garantia de direitos das mesmas. 

Prioridades em Comum: Informar, Arrecadar e Ajudar 

Nos primeiros dias da crise, a prioridade foi a mesma: comunicar e informar os moradores sobre a chegada da Covid-19 no país e, consequentemente, nas favelas. Além da comunicação nas mídias comunitárias, redes sociais e no WhatsApp, os convidados explicaram que para atingir toda a população local, foi necessário usar carros de som, estender faixas informativas e colar cartazes nos comércios locais. 

Na Live, Gizele Martins—da Frente de Mobilização da Maré, que foi criada há dois meses para responder à crise—disse que para a comunicação funcionar, a estratégia foi de usar mensagens simples e diretas. Ela contou que as mensagens eram assim: “Os hospitais de referência que devem ser procurados são X. O número de mortos e infectados na comunidade é de X. Recomendamos a quem puder [que] todos fiquem em casa. Fica em casa morador! Ajude seu vizinho se puder. Colabore com água e sabão”, e ela completou: “Além de prevenção e higienização, passamos também a falar da violência doméstica, porque por conta do isolamento a gente teve um aumento”.

De acordo com Gizele, “o que mais tem atingido a população é o carro de som”, apesar de ser a estratégia de comunicação mais cara. O custo semanal é de R$600. Gizele esclareceu que as decisões da Frente de Mobilização da Maré seguem uma lógica bem clara. “A gente pensa nessa [forma de] comunicação porque a gente sabe a realidade da nossa favela”, diz ela.

Alguns dias depois da implementação das primeiras medidas de isolamento social, mobilizadores constataram a vulnerabilidade alimentar, surgida em parte por causa da falta de renda diária de muitos trabalhadores. Sendo assim, os mobilizadores precisaram concentrar seus esforços no fornecimento de produtos para responder às necessidades básicas e urgentes, como água, alimentação e gás. Além disso, eles também precisaram responder às demandas específicas da pandemia, como a propagação do uso de máscaras e instalações de pontos de higienização—com água e sabão para a população lavar as mãos—em lugares estratégicos da comunidade. Especialmente, porque há uma população em situação de rua nos arredores do Complexo da Maré.

Para conseguir financiar o trabalho de comunicação e as distribuições de cestas básicas, vários grupos criaram vaquinhas online para arrecadar dinheiro. Ao mesmo tempo, os grupos estão recebendo doações físicas, mas é um processo que requer um alto nível de organização. Geiza de Andrade, do Gabinete de Crise Vila Kennedy, explica: “Temos um centro comunitário para que aqueles que têm medo de entrar na comunidade, possam deixar as doações fora, e dali distribuímos para os outros polos”.

Ilaci Oliveira, da Cooperativa Transvida que atua com catadores na Vila Cruzeiro, no Complexo da Penha, explica que apesar dos esforços, a iniciativa não está conseguindo atender todos os que necessitam. “Começamos a cadastrar as pessoas para receberem as cestas… Cadastramos agora 1.800 famílias, mas não conseguimos alimentar a todas ainda.” 

Ela continuou explicando que o auxílio do governo, de R$600, não é suficiente para muitas famílias. “Estão falando: ‘Ilaci, estou aqui também precisando. É muito pouco. Você sabe que não dá para manter uma família com R$600’”. A Vila Cruzeiro possui 70.000 habitantes. Gizele Martins também lamentou a falta de recursos para os comunicadores comunitários, e todos expressaram durante a live a preocupação na capacidade de conseguir arrecadar e distribuir apoio a todas as famílias passando por necessidades urgentes a longo prazo.

Descentralizar no Território para Atingir mais Pessoas

O Gabinete de Crise da Vila Kennedy foi criado como uma rede de solidariedade, mas agora já envolve quase uma centena de voluntários e parceiros. A agente ambiental, Geiza de Andrade é uma delas. Ela ressaltou como funciona o processo de organização na comunidade: “A gente dividiu a Vila Kennedy como se fosse um jogo da velha, em nove pedaços, tendo lideranças em cada uma dessas partes. Isso porque dentro da Vila Kennedy existem várias outras favelas menores”. Além disso, Geiza explicou que a topografia da comunidade é um outro desafio. “Aqui a gente tem uma área plana e encosta, por isso dividimos em várias áreas para melhor abranger esse território todo”.

Gilson Rodrigues, liderança da favela de Paraisópolis, em São Paulo, e da rede nacional G10 das Favelas, também compartilhou estratégias pioneiras que estão sendo muitos eficazes. “A cada 50 pessoas nós temos um morador voluntário que é o presidente da rua e que coordena 50 famílias. Ele tem algumas responsabilidades: a primeira é achar um vice-presidente, porque se ele faltar, alguém precisa acompanhar tudo nesse processo; o presidente da rua também ajuda a conscientizar as pessoas para que fiquem em casa; monitora 50 famílias através de um grupo de WhatsApp—e ainda mais os idosos e pessoas vulneráveis—para acionar a ambulância quando necessário”, explicou Gilson. O presidente da rua também faz as distribuições de cestas básicas. “Quem não está em casa não recebe”, afirmou Gilson. É uma forma de estimular a aderência ao isolamento.

Apoiar os Doentes e os Desempregados

Além de dividir as responsabilidades no território, o Comitê de Paraisópolis, também se organizou para apoiar as famílias com doentes, desde os casos mais graves e até em caso de óbito. Eles criaram duas casas de acolhimento para quarentena de moradores suspeitos de estarem infectados pelo coronavírus, mas que não podem se isolar em casa sem infectar os outros membros da família. As casas de apoio, que funcionam em duas escolas públicas, podem receber até 260 pessoas (com sintomas leves). O grupo também contratou três ambulâncias com uma equipe de pronto-atendimento 24 horas: são dois médicos, três enfermeiros e dois socorristas, que ficam na comunidade e vão para as casas dos doentes quando é necessário. “Porque o SAMU não chega na favela. O socorro rápido aqui não existe”, Gilson contou, adicionando que todos os dias uma ambulância é acionada.

Até como se organizar dentro da comunidade, para a retirada de corpos das partes mais altas da favela sem riscos, foi pensado pelo Comitê de Paraisópolis. “Estamos sendo bem radicais aqui na nossa preparação. Por mais loucura que pareça, são coisas que temos que pensar. Estamos buscando nos organizarmos para o pior.” Gilson salientou que as dificuldades são econômicas e que também resultam do abandono público. “Existem dois Brasils: o Brasil do álcool gel, do home office, da quarentena, e o Brasil que está passando fome, que está sendo demitido [ficando] à sua própria sorte, e está sendo ignorado.”

O grupo desenvolveu vários meios para ajudar financeiramente partes da população que estão sem renda, como uma campanha chamada “Adote Uma Diarista”. A campanha inscreveu 1.280 empregadas domésticas que foram demitidas por conta da quarentena. A campanha conseguiu ajudar financeiramente 750 delas, o restante recebeu um kit higiênico e cesta básica. Gilson analisa a possibilidade de estender essa campanha para demais profissões. Ele afirmou que é necessário “pensar como é que a sociedade pode se mobilizar para apoiar essas categorias que estão sem renda, porque [senão] vão passar fome”.

Na mesma lógica desse processo de dentro da favela que cuida de seus próprios moradores, Gilson compartilhou outra iniciativa que se chama Home Office de Costureiras das Favelas do Brasil. O projeto leva máquinas de costura para as casas de costureiras que podem passar a gerar renda ao produzir máscaras. Ele acredita que “o projeto deve produzir mais de um milhão de máscaras no próximo período para distribuir para a favela”. O grupo de Paraisópolis também incentiva o consumo de produtos de comércios de dentro do território.” Ao invés de comprar fora da comunidade, compramos dentro.”

Além de ser um ativista local, Gilson também é coordenador do G10 das Favelas, um bloco de lideranças e empreendedores de impacto social de 10 favelas nacionais que está unindo forças em prol do desenvolvimento econômico e protagonismo das favelas. “Nós temos procurado reproduzir o que fazemos aqui [em Paraisópolis], em outras partes do Brasil. Criar a nossa própria política pública já que não temos uma política pública para as favelas do país”, explicou Gilson e conclui: “Criamos esse cardápio de soluções que podem ser adaptadas”.

Obstáculos ao Trabalho Comunitário: Governo, Milícias e Algumas Igrejas

Os palestrantes também compartilharam obstáculos que estão atrapalhando o trabalho de sensibilização e ajuda dentro das favelas. Geiza de Andrade, da Vila Kennedy, Zona Oeste, explicou que a influência do Presidente da República atrapalhou os esforços dos comunicadores: “O nosso trabalho estava evoluindo, mas depois do pronunciamento do nosso presidente, a gente percebeu que tivemos um retrocesso nas ruas. As pessoas que estavam em casa, começaram a se sentir mais seguras e a sair nas ruas”.

A mesma situação também foi percebida no Complexo da Maré. “A gente precisa fazer uma contrainformação em relação aos pronunciamentos governamentais. É um desafio enorme“, acrescentou Gizele Martins. 

Além da influência negativa do governo federal, Rafael Oliveira, do Coletivo Favela Vertical, de Gardênia Azul na Zona Oeste, também revelou que a milícia impacta no trabalho dos comunicadores em Gardênia Azul. “Nesses momentos, tudo tem que ser dialogado. É muito complicado dialogar com este tipo de poder autoritário”, explicou Rafael. Por ordem dos paramilitares, por exemplo, os comércios em que a ampla atuação da milícia acontece foram reabertos. Também têm relatos de que a milícia coage os moradores a sacarem o auxílio emergencial do governo e entregarem para eles.

Apesar dessas barreiras adicionais, os mobilizados da favela Gardênia Azul não desistem: “A gente trabalha com os problemas técnicos que não são nossos, com problemas políticos que a gente tem que pautar, e tentar dobrar”. No entanto, Rafael é realista sobre as raízes da crise que atinge as favelas e do suporte que mobilizadores e comunicadores comunitários vêm dando às famílias: “É um trabalho paliativo que cura algumas feridas, mas não salva o doente.”

Uma das questões que mais preocupou o público virtual da mesa-redonda foi: “Como o fator religioso pode interferir no isolamento social?”. De forma unânime, todos os palestrantes concordaram que as igrejas têm uma grande influência na comunidade. Relatando experiências, eles mostraram que as religiões têm influências diferentes em cada território. 

Na Maré, Gizele explicou que nos primeiros dias, as igrejas colaboraram com o trabalho de comunicação. “Colocaram seus próprios carros de som na rua com músicas evangélicas e católicas, recomendando após as canções e louvores, que a população ficasse em casa”, contou ela. Já Gilson explicou que “as igrejas [em Paraisópolis] poderiam cumprir um papel muito importante de ajudar as pessoas a ficar em casa, mas elas têm feito um papel diferente”. Gilson relatou que muitas igrejas evangélicas continuam funcionando normalmente e “ficam bastante lotadas”. Rafael destacou que, dentro da variedade de igrejas existentes dentro da favela Gardênia Azul, as evangélicas e protestantes não apoiaram o isolamento, mas as igrejas católicas, centros espíritas e de matriz africanas (umbanda e candomblé) estão colaborando. 

Geiza de Andrade ressaltou que, na Vila Kennedy, em um primeiro momento, “os pastores das igrejas evangélicas apoiaram a ideia da quarentena, fechando as igrejas e fazendo culto online”, mas ela percebeu que após o pronunciamento do Presidente da República, que é contra medidas de isolamento social em favor da economia, “as igrejas pequenas passaram a abrir, e as outras igrejas maiores estão abrindo, mas com restrição”. 

Um Intercambio a Reproduzir

Outros problemas sensíveis às favelas, mas também referentes ao enfrentamento das consequências da pandemia mundial do coronavírus, surgiram a partir da participação do público virtual durante a live. A preocupação com a manutenção da saúde mental da população e o adoecimento mental das pessoas, bem como o crescimento de casos de violência doméstica, no período de isolamento social, foram tópicos bastante abordados nos relatos durante o “microfone aberto”. A dúvida sobre os dados divulgados pelo governo—isto é o real número de infectados e de mortes de moradores de favelas e da população em geral—também foi levantado como uma outra preocupação. 

Neste sentido, todos os palestrantes estão conscientes que esta nova luta está apenas começando. O empenho de cada participante poderia se resumir a fala de Ilaci: “É um costume na comunidade: se você grita socorro, 2.000 outros vão atender a sua casa para ajudar”.

Assista a Live aqui:

*A Rede Favela Sustentável (RFS) e o RioOnWatch são projetos da Comunidades Catalisadoras. A RFS tem o apoio da Fundação Heinrich Böll Brasil.


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