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31 Favelas com Casos Confirmados: O Perigo das Subnotificações da Covid-19 em Favelas

Subnotificação Torna a Pandemia no Brasil a Mais Perigosa do Mundo

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Esta é a nossa mais recente matéria sobre o novo coronavírus e seus impactos sobre as favelas.

As subnotificações de casos e óbitos por Covid-19 no Brasil são gigantescas devido ao número insuficiente de testes realizados e a demora para liberar os resultados. O número alto de óbitos em relação ao número de casos confirmados e o súbito crescimento dos casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), além do aumento da capacidade de necrotérios em hospitais do Rio são evidências deste fenômeno.

Em abril, especialistas estimaram que para cada óbito confirmado por Covid-19 deveria ter até mais 9 que não foram notificados. O número de casos no Brasil deve ser 15 vezes maior do que declarado. O Brasil é agora o país com a taxa de contágio mais alta do mundo. Nas favelas cariocas as subnotificações explodem. A relação entre os números de óbitos e casos confirmados é duas vezes maior do que no restante da cidade.

Se no começo os efeitos da doença foram sentidos primeiro nos bairros nobres, agora o coronavírus está batendo com força nas favelas e periferias, mas os números oficiais atuais não refletem suficientemente esta realidade.

Comunidades Criam Próprias Ferramentas para Monitorar Vítimas

Até nesta área, mobilizadores de favela estão preenchendo a lacuna deixada pelo Estado. Comunicadores comunitários de várias favelas estão desenvolvendo seus próprios painéis digitais para seguir a evolução dos casos nas favelas cariocas e disponibilizar dados mais realistas. O jornal Voz das Comunidades criou o painel Covid-19 nas Favelas que mostra o número de casos e de óbitos confirmados por comunidades e sua evolução no tempo, com base em dados públicos.

Nesta quarta-feira, 13 de maio, o portal reportou 14 comunidades com 362 casos confirmados e um total de 114 óbitos. A contagem é baseada nos dados da prefeitura disponibilizados no Painel Rio Covid-19—e agora também contempla dados do governo estadual, Clínica da Família Zilda Arns, Clínica da Família Pavão-Pavãozinho e Cantagalo, Centro de Saúde Escola Germano Sinval Faria – ENSP, Clínica da Família Victor Valla, Clínica da Família Maria do Socorro Silva e Souza, Clínica da Família Rinaldo De Lamare, Cms Dr Albert Sabin e Comitê SOS Providência.

O painel do Voz das Comunidades atualmente contabiliza Rocinha (92 casos confirmados), Manguinhos (42), Complexo da Maré (39), Morro da Providência (34), Mangueira (28), Jacaré (28), Complexo do Alemão (27), Cidade de Deus (23), Acari (22), Vidigal (13), Pavão-Pavãozinho e Cantagalo (7), Jacarezinho (5), e Vila Kennedy (2).

O painel do Vozes contemplava somente dados do painel da prefeitura até esta semana. No entanto, dados compartilhados por várias Clínicas da Família—do Complexo do Alemão, Manguinhos, Jacarezinho, Rocinha, Pavão-Pavãozinho e Cantagalo—revelavam que as unidades de saúde comunicavam os números de casos e óbitos com teste positivo muito mais rapidamente do que a prefeitura, e possuíam uma cobertura do território mais precisa. 

Por exemplo, a Clínica da Família Zilda Arns, que atua numa parte do território do Complexo do Alemão, criou um painel público próprio, atualizado todos os dias, para monitorar não só os casos e óbitos confirmados, mas também os casos suspeitos com síndrome gripal, com SRAG ou internados, e os recuperados. Também continha dados mais específicos sobre idade, sexo, sintomas e bairros de residência das pessoas contabilizadas. 

O Painel de Monitoramento COVID-19 Clínica da Família Zilda Arns permite ter uma visão mais exata da realidade da propagação do vírus naquele território. Enquanto a prefeitura reportava só 5 casos e nenhum óbito no Complexo do Alemão, a Clínica da Família já havia identificado 27 casos e 10 óbitos com testes positivos e 1505 casos suspeitos, em 12 de maio.

Duas outras comunidades também já têm seus próprios painéis de monitoramento publicados por unidades de saúde: a Rocinha, que também tem disponibilizados, no Painel de Monitoramento Covid-19 Rocinha, o número de testes aguardando resultado e os resultados negativos; e Manguinhos, que no Painel de Situação Manguinhos – COVID19 há um mapa para localizar a origem dos casos e dos óbitos dentro do bairro.

A Frente de Mobilização da Maré também disponibilizou um painel de monitoramento da Covid-19 como parte da campanha #CoronaNasFavelas. O painel apresenta a evolução dos números de casos e óbitos confirmados em diferentes favelas do Rio, e também traz um gráfico comparativo entre o Estado e o Município do Rio de Janeiro, além de dados internacionais dos Estados Unidos, Itália, e China. Também é baseado nos dados da prefeitura, mas incluem os casos da Covid-19 em bairros que o painel do Voz das Comunidades não contabiliza, sendo eles: Vigário Geral, Parada de Lucas e Caju. O painel da Frente de Mobilização da Maré informa que a Covid-19 já chegou em 16 comunidades com casos, 431 casos confirmados e 135 óbitos em total, em 13 de maio.

Dados da Prefeitura Inadaptados ao Monitoramento das Favelas 

Estas diferenças de dados são ocasionadas devido a escolha de quais bairros—definidos no painel da prefeitura—são categorizados como sendo favela, porque as delimitações dos bairros usadas no levantamento de casos pela prefeitura raramente correspondem às áreas das comunidades. 

Isso revela a amplitude da subnotificação de casos nas favelas cariocas: muitas comunidades fazem parte de um bairro maior, então seus casos não podem ser citados especificamente, são diluídos nos números totais da área onde estão localizados. 

Por exemplo, o território de Rio das Pedras faz parte da área de Jacarepaguá (133 casos) e do Itanhangá (33 casos), então os números de casos confirmados desta favela não são contabilizados pela prefeitura como sendo casos de coronavírus dentro da comunidade. Da mesma forma, os bairros de Pavuna (70 casos) e Costa Barros (27 casos) contém várias comunidades que não fazem parte dos números específicos das favelas. E o Morro da Providência (10 casos) fica dentro da Gamboa, no Centro. Os dados são de 12 de maio.

Relatos de várias partes da cidade demonstram esse fenômeno. Sejam nos dados da prefeitura ou dos painéis comunitários listados acima, todos só consideram favelas e complexos maiores. Isso deixa a grande maioria das favelas do Rio de Janeiro sem sequer dados públicos sobre seus casos. O RioOnWatch tem ciência de casos e mortes, por exemplo, em comunidades pequenas como Pica-Pau em Cordovil, Vila Parque da Cidade, Mata Machado, Tijuaçu, Asa Branca, e Tuiuti. Até favelas maiores como Borel, Complexo da Penha e Gardênia Azul, temos notícias de casos, porém não estão enumerados nas listas e painéis citados acima. E até nas comunidades listadas nesta matéria, temos notícias de grupos locais de que os números reais são muito maiores do que os listados nos vários painéis citados na matéria. Outras fontes de mídia também têm reportado ainda outras comunidades impactadas como Vilar Carioca e os complexos São Carlos e Pedreira. É de se concluir, então, que o número de favelas impactadas já seja uma grande proporção dos territórios de favela na cidade.

Por isso, os dados do Painel Rio Covid-19 da prefeitura não atendem a necessidade urgente de monitoramento dos casos de Covid-19 específico das favelas do Rio de Janeiro, porque o governo utiliza delimitações que não correspondem aos limites territoriais das favelas. Como resultado, existe um apagão de dados sobre a realidade da pandemia nas favelas, razão pela qual ativistas de favelas acreditam que a situação nas comunidades já é muito mais crítica do que parece nos dados oficiais. 

Zonas usadas pelo monitoramento dos casos de Covid-19: inadaptadas para cobrir os territórios das favelas

Esconder a Escala da Crise nas Favelas Consta Necropolítica

Os dados das unidades de saúde e os levantamentos comunitários já revelam que a prefeitura não está se preocupando em contabilizar casos em favelas, apesar das mesmas correrem o maior risco com a pandemia. Segundo o post da página no Facebook, Voz da Vila Kennedy, existe pelo menos 16 óbitos na Vila Kennedy; e de acordo com o painel da Clínica da Família Zilda Arns já são 10 óbitos no Complexo do Alemão, um número diferente dos 5 contabilizados no painel da prefeitura. A ocultação da escala da crise da pandemia nas favelas só reforça ainda mais as pessoas a acreditarem na retórica insidiosa do Presidente Bolsonaro, ocasionando a não adesão da população de favelas as medidas de prevenção como o isolamento social.

Minimizar o problema nega também o reconhecimento da necessidade de políticas públicas firmes e específicas para lidar com a situação nas favelas. No momento em que, as unidades de saúde pública do município confirmam que as autoridades não divulgam a totalidade dos casos nas favelas, pode-se afirmar que essa falta de transparência é uma política negligente e cruel do Estado para as favelas.

Também é difícil encontrar os números exatos de certas zonas de outras áreas de periferias do país como em São Paulo. Como resultado é impossível saber quantos casos de infectados pelo coronavírus e óbitos realmente existem nas favelas do Brasil. 

Os dados oficiais disponibilizados pelos governos municipal, estadual e federal, são muitas vezes a única fonte à qual a mídia e o grande público podem recorrer para avaliar e analisar a situação e informar a população sobre a pandemia nas favelas, cobrando e fiscalizando as soluções oferecidas pelas autoridades públicas. Sem estes dados, não temos base eficaz para o desenvolvimento e realização de políticas públicas ou cobrança às autoridades. 

A escalada da pandemia nas favelas só não está tão invisível, porque iniciativas como as citadas em algumas favelas da cidade do Rio, se multiplicam a cada dia. 

Lista de Favelas com Casos Confirmados

Acari
Asa Branca
Borel
Caju
Cantagalo
Cidade de Deus
Complexo da Maré
Complexo da Pedreira
Complexo da Penha
Complexo do Alemão
Complexo São Carlos
Costa Barros
Jacaré
Jacarezinho
Mangueira
Manguinhos
Mata Machado
Morro da Providência
Parada de Lucas
Pavão-Pavãozinho
Pavuna (região)
Pica-Pau em Cordovil
Rio das Pedras
Rocinha
Tijuaçu
Tuiuti
Vidigal
Vigário Geral
Vila Kennedy
Vila Parque da Cidade
Vilar Carioca

Caso saiba de algum caso suspeito ou confirmado em alguma comunidade não citada nesta lista, por favor nos envie informações pelo WhatsApp 99832-5575 ou email contato@rioonwatch.org.br.

No momento está sendo divulgado um questionário de uma pesquisa coordenada pela Subsecretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação (SECTI) e FAPERJ em parceria com a UERJUFRJ e Fiocruz, “com objetivo identificar a existência de prováveis casos de subnotificação nos sistemas de informação, para ajudar as ações de prevenção e promoção de saúde pelos órgãos governamentais”. Veja o questionário Subnotificação da COVID-19 no Estado do Rio de Janeiro aqui.


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