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Favelas Dão Aula na Live ‘Povo Brasileiro é Sem Memória? A Memória da Pandemia na Favela’

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Esta é nossa matéria mais recente sobre o novo coronavírus e seus impactos sobre as favelas e também da série LIVES Covid-19 nas Favelas.

No dia 27 de julho o Grupo de Trabalho Memória e Cultura, da Rede Favela Sustentável (RFS)*, organizou a aula pública online: Povo Brasileiro é Sem Memória? A Memória da Pandemia na Favela. A live interativa mediada por Bia Carvalho, coordenadora do projeto Mulheres de Frente e integrante do GT, reuniu cinco palestrantes que dialogaram sobre o tema e como projetos de memória nas favelas têm um papel crucial para nutrir o sentimento de pertencimento em seus territórios, e como este sentimento é a base para a promoção dos cuidados locais, o que é especialmente relevante em plena pandemia.

O debate contou com Jota Marques, educador popular, conselheiro tutelar e coordenador do coletivo Marginal e integrante da Frente CDD, na Cidade de Deus; Marcia Penna, pedagoga e analista técnica do Sesc Departamento Nacional, na Gerência de Formação e Pesquisa; Elisabeth Lopes, do grupo Mulheres que Acontecem, no Salgueiro; Luiz Antônio de Oliveira, historiador e um dos fundadores do Museu da Maré; Maria da Penha, moradora da Vila Autódromo e representante do Museu das Remoções; e Glaucia Maciel, integrante da Orquestra de Rua, no Morro da Providência. A live contou com 81 participantes no Zoom, e foi vista por mais de 470 pelo Facebook.

Ação da Frente CDD

A roda de conversa foi marcada por críticas ao Estado, que segundo os palestrantes, virou as costas às favelas em meio à pandemia. Jota Marques explicou: “Fomos deixados, se não para morrer do vírus, para morrer da fome ou da bala”, e acrescentou: “Se a gente não age pela gente… provavelmente ficaremos ao Deus dará”. Para solucionar a falta de ação do Estado, as várias instituições representadas na live se reuniram para dar suporte as suas comunidades. É o caso do Museu da Maré e da Orquestra de Rua, cujas atividades cotidianas cessaram por causa do distanciamento físico, porém o trabalho de ambos continuaram com o foco no combate à pandemia.

“Na Maré se criou a Frente de Mobilização da Maré que foi construída por alguns coletivos, instituições e moradores da Maré. Em torno de 100 pessoas participam desde o início. Começou com a comunicação para alertar sobre a Covid, e foi visto que só isso não bastava, era necessário redução de danos… Abrimos o museu para ser um espaço da Frente de Mobilização receber cestas básicas e alimentos orgânicos, das nove às nove durante a semana”, disse Luiz Antônio de Oliveira.

“Infelizmente, apesar de ser um vírus democrático, as consequências não o são”, lembrou Jota, explicando que os problemas vão para além da fome e da falta de apoio às famílias. “Também as operações policiais na ‘guerra às drogas‘ atrapalha o nosso fluxo de ações.” Ele relembrou como a operação policial, que causou a morte do jovem João Vitor Gomes da Rocha, interrompeu a distribuição de cestas básicas na Cidade de Deus. A partir desta forte lembrança, Jota apontou a importância do papel da memória: “Temos de olhar para o antes e depois, contar o que aconteceu e refletir sobre o que faltou e o que podia ter sido diferente se tivéssemos mais recursos”.

Ações como estas criam constrangimentos, Marcia Penna explica: “Como diz a [personagem] Mafalda, ‘o urgente toma conta do que é importante’. Estamos sempre apagando fogo, resolvendo o mais urgente e acabando sem tempo de nos determos em outras coisas, como a memória”, que é importante para “resgatar as vozes… é importante não silenciar”.

Embora o sentimento de coletividade e a ajuda mútua sejam importantes, é também necessário cobrar aos governantes o trabalho que não está sendo feito, sublinhou Maria da Penha, com o apoio de muitos dos participantes na live. “Não podemos parar de pensar nas políticas governamentais, porque nós temos que entender que nós somos os patrões, temos de cobrar deles! Quem dá o dinheiro e mão de obra somos nós, os pobres. Por que nossos governantes têm mais direito do que nós? Precisamos de consertar esse algo errado… São memórias que não podemos esquecer. Temos de começar a trabalhar num amanhã diferente.”

A fala da participante da live, Paula Kleper, sintetizou o debate: “Temos um estado que define quem vai comer. Temos um estado que decide quem vai passar fome… Foram as favelas que deram uma grande aula de solidariedade, promovendo autocuidado, informação, e um outro projeto político de existência… A favela conta uma história: praticamos lutas e solucionamos os problemas”.

Assista à Live Interativa Aqui:

*A Rede Favela Sustentável (RFS) e o RioOnWatch são projetos da Comunidades Catalisadoras. A RFS tem o apoio da Fundação Heinrich Böll Brasil.


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