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GatoMÍDIA Sedia Residência de Mídia e Tecnologia Favelado 2.0 no Complexo do Alemão

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Entre 1 e 12 de março, o coletivo de mídia GatoMÍDIA do Complexo do Alemão sediou uma intensiva residência de mídia e tecnologia para capacitar jovens de favelas para edificarem as suas próprias culturas e “construir gambiarras para o futuro.”

Intitulado Favelado 2.0, a residência incluiu oficinas de vídeo, fanzines, ilustração, fotografia, mídias sociais, texto e mídia-ativismo. De acordo com o GatoMÍDIA “a ideia é empoderar cada vez mais a cultura colaborativa na favela estimulando cada um a compartilhar conhecimento com o outro, fortalecendo assim uma cultura de rede local de favelados conectados construindo seu próprio futuro”.

GatoMÍDIA residência Favelado 2.0. Foto de João Lima

GatoMÍDIA levantou fundos para realizar o ambicioso e inovador Favelado 2.0 através de uma campanha de financiamento colaborativo (crowdfunding) com outros sete projetos comunitários no Complexo do Alemão em dezembro passado e recebeu verba do Common Action Forum de Madrid.

Mais de 200 moradores jovens de favelas se inscreveram para participar da residência. Foram selecionados 20. Metade dos lugares foram alocados para moradores do Complexo do Alemão e da Penha, onde a residência foi ministrada, e as outras vagas foram para moradores de favelas de toda a cidade do Rio e da Baixada Fluminense na Grande Rio. A seleção final incluiu moradores do Complexo do Alemão, Maré, Jacarezinho, Cavalcante, Engenho da Rainha e Complexo da Penha, na Zona Norte; Cidade de Deus e Praça Seca na Zona Oeste; Santa Marta e Tabajaras, na Zona Sul; e São João de Meriti na Baixada Fluminense. Os participantes chegaram ao workshop com diferentes interesses, incluindo design gráfico, teatro, vídeo, jornalismo e graffiti.

Workshop de fanzine que encoraja os participantes a criarem sua própria revista em quadrinhos. Foto de João Lima

A residência começou em 1 de março com base na Nave do Conhecimento em Nova Brasília, Complexo do Alemão. Com forte foco em participação e trocas, as discussões de abertura da residência exploraram a filosofia de que favelas são lugares de criatividade e inovação, ou a cultura maker (faça-você-mesmo). Jornalista e integrante da GatoMÍDIA Thamyra Thâmara argumentou que “criar e inovar no cotidiano é a ferramenta de resiliência do pobre, preto e favelado. Nós reinventamos nossa vida todos os dias. E estamos desconstruindo para continuar criando conceitos próprios e disputando nosso lugar de fala e de fazedor”.

Os dias de abertura contaram com palestras inspiradoras dos mídia-ativistas Raull Santiago do Coletivo Papo Reto e Anderson Araujo da Mídia Periférica em Salvador e exercícios envolventes em que os participantes tiveram que defender o seu ponto de vista.

Sabrina Martina, de 18 anos, do Complexo do Alemão, explicou no terceiro dia: “A proposta é incentivar a nossa criatividade. É muito maneiro o projeto. É uma proposta totalmente nova e tenho certeza que a gente não vai sair do mesmo jeito”.

Oficina de criatividade e roteiro de vídeos. Foto de João Lima

Oficinas sobre ferramentas e técnicas específicas foram seguidas por treinamento na criação de vídeos para o YouTube pelo ator e comediante Marcelo Magano que incentivou o grupo dizendo: “Qual habilidade informal você possui? Que tal criar metodologias para essas habilidades? A ideia criativa nada mais é do que uma combinação de coisas. Um grande liquidificador da mente!”

O fotógrafo e integrante da GatoMÍDIA João Lima conduziu oficinas de fotografia. O workshop de ilustração foi realizado pelo designer e animador Lucas Pelegrineti enquanto Thamyra Thâmara conduziu workshops sobre mídias sociais e projetos de apresentação.

A segunda semana da residência foi focada na aplicação prática das técnicas aprendidas e no desenvolvimento de projetos e ideias. Durante a semana o grupo trabalhou de forma colaborativa para produzir vídeos, ensaios fotográficos e um texto coletivo.

Produzindo o vídeo “Gambimake”. Foto de João Lima

O vídeo “Gambimake” feito por Mayara Ximenes, Caroline Christmann, Isys Natã, Alessandra Martins, Larissa Neves, Rodrigo Vicente e Robson Deluqui é um tutorial de maquiagem usando produtos a preços acessíveis. A maquiadora e apresentadora Mayara, de 23 anos, explica: “A gente sempre vê um monte de tutoriais, mas é sempre com maquiagem bem cara. A gente vai usar produtos que compramos em bairros populares ou até mesmo em camelôs. Nada que está aqui passou de R$10, e é acessível para todo mundo”.

Um vídeo apresentado por Samuel Sorriso, de 19 anos, explora a cultura maker que existe na favela, levando o espectador a um passeio de criatividade e inovação do cotidiano. Com humor e carisma, Samuel destaca os pesos criados a partir de garrafas de refrigerantes, recipientes de sorvetes feitos de garrafas de água, esponjas de lavagem de carros fabricadas a partir de um colchão, latas de lixo improvisadas e os moto-táxis como eficazes meio de transporte nas estreitas vielas das favelas.

Ele termina o vídeo falando sobre sua experiência na residência Favelado 2.0: “Foi uma grande aventura e um grande prazer poder estar essas duas semanas junto com o povo da residência, uma troca de experiências e estudos. Admirei e gostei muito”.

Oficina de fotografia usando espelhos. Foto de Íris Almeida, Larissa Neves e May Ximenes

No dia final da residência, GatoMÍDIA publicou o texto coletivo produzido de forma colaborativa pelos participantes que explora a definição de “Favelado 2.0”. O texto é uma afirmação de que a geração mais jovem é tecnologicamente mais astuta, digitalmente conectada e tem o poder de criar sua própria cultura. Ele também descreve a vida e os desafios diários tais como o estigma da experiência em shoppings ou bares da Zona Sul, a dificuldade de transporte para a praia ou chegar em casa tarde a noite, durante tiroteios e as tensões com a polícia. O texto conclui:

“[O favelado 2.0] aprendeu que seu celular pode ser utilizado tanto pra zoação, como para registrar os esculachos, os delicados momentos de conflitos onde os direitos humanos são violados. Ele também é chamado pra ajudar aquela vizinha que comprou um aparelho celular e não sabe manusear. O favelado 2.0 é cria, tá na pista pra negócio, registrando tudo, nada passa batido, tá ligado nas novidades, se reinventando e fortalecendo a favela.”

A residência foi finalizada no sábado, 12 de março, com uma discussão sobre os realizadores nas favelas e a apresentação de projetos desenvolvidos durante as duas semanas. Na sequência desta primeira edição bem-sucedida, GatoMÍDIA está planejando uma segunda residência a ser realizada em maio.