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O Pós-Covid-19 nas Favelas e Periferias: Novos Paradigmas Sociais e Econômicos

Fabi em um oficina de leitura com crianças de sua comunidade. Foto por Fabi.

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Esta é nossa matéria mais recente sobre o novo coronavírus e seus impactos sobre as favelas e parte de nossa parceria com o The Rio Times. Para a matéria publicada no The Rio Times, clique aqui.

A pandemia do novo coronavírus, trouxe para o mundo a necessidade de recolhimento. Porém, a possibilidade de ficar em casa, desfrutar da companhia de parentes, do cuidado e do conforto familiar, para muitos, sempre foi um privilégio. E, para todos nós, passou a ser a regra número um na tentativa de contenção do vírus. No entanto, a pandemia chegou no Brasil acompanhada por muitas irresponsabilidades políticas e também pela baixa adesão da sociedade às recomendações das autoridades sanitárias internacionais.

O início da quarentena, cujo prazo inicial era até abril, suscitou o medo em algumas famílias que vivem da renda ganha diariamente. Medo frente à possibilidade de desemprego e perda de renda, sobretudo, frente aos perigos da exposição ao vírus. Contudo, grandes empresários e políticos, não desejosos de verem seus lucros e apoio político despencarem com o fechamento da economia, contrariando todas as recomendações da OMS, pressionaram as instituições pela retomada rápida e irrestrita das atividades econômicas, independentemente da curva epidemiológica.

Contudo, inesperado era que a Covid-19 mudaria alguns rumos no debate econômico. Movimentos sociais e setores do Congresso Nacional retomaram um tema muito pouco discutido antes da pandemia: a renda básica universal. Afinal, a pandemia não somente reduziu os ganhos salariais das pessoas, mas também deixou muitas outras desempregadas e em extrema pobreza. Muitas empresas fecharam, decretaram falência. E muitos trabalhadores informais e autônomos ficaram impossibilitados de exercerem suas profissões e, portanto, de garantirem seu sustento.

Nestes tempos de coronavírus, ficou claro que a subsistência de milhões de pessoas estava por um fio e, portanto, as próprias condições de reprodução do sistema econômico brasileiro também estavam. Segundo dados do IBGE, durante o ano de 2020, quase metade das brasileiras e brasileiros receberam o auxílio emergencial de R$600, aprovado pelo Congresso Nacional, destinado a pessoas de baixa renda e a trabalhadores informais atingidos pela calamidade econômica e sanitária.

A Economia Política das Favelas Pós-Covid-19, Segundo Lideranças Locais

Crianças lendo com durante a pandemia. Foto por: Fabbi.Com o passar das primeiras semanas, tivemos que lidar com a desconexão do poder público entre as suas três esferas—federal, estadual e municipal. Entre diversas crises, expostas nas trocas de ministros da Saúde, o país está há mais de 110 dias sem ministro da Saúde. À duras penas, houve uma vitória de um auxílio emergencial com um valor que beira o irrisório. Muitos riram e compartilharam memes, mas para milhões de brasileiros, esse valor é de grande diferença. Há lugares (e muitos) onde não dá pra lavar as mãos e manter o distanciamento físico, pois nesses mesmos espaços, às vezes, um cômodo abriga uma família inteira. Só na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, mais de 3 pessoas vivem em um quarto em 300.000 casas. A favela do Jacarezinho lidera esse ranking.

No entanto, nas favelas e periferias existe um paradoxo, pois onde mais faltam estruturas básicas para a rotina da vida, sobram afetos e cuidados coletivos. Sobram cadeiras nas portas para um bate papo no fim da tarde. Sobra um açúcar para emprestar pro vizinho. E são nesses territórios que moram pessoas como o Douglas, a Fabbi e a Ingrid. Três lideranças comunitárias que abrem mão do tempo com suas famílias, de seus momentos de lazer para se dedicarem ao outro, para fazer algumas (muitas) coisas pelas suas comunidades. Douglas, em São João de Meriti. Fabbi, em Duque de Caxias, no Parque das Missões. E Ingrid, na Cidade de Deus, na Zona Oeste do Rio.

Douglas Almeida é economista, católico e atua como coordenador de Mobilização e Incidência na Casa Fluminense. O economista foi um dos jovens brasileiros escolhidos para conhecer o Papa Francisco e participar da conferência intitulada “Economia de Francisco” cujo objetivo é debater com outras lideranças da área econômica, um futuro menos desigual para o mundo. Perguntado sobre o amanhã, principalmente das favelas e periferias, e como ficam os territórios que estão a margem de qualquer política social para a diminuição das desigualdades, Douglas foi categórico em afirmar que mudanças precisam acontecer. Para ele, “a pandemia é o acontecimento que traz a urgência para o Brasil virar a chave”. É preciso, segundo Douglas, se debruçar em encontrar caminhos para a superação das desigualdades.

Os dados têm mostrado: nas favelas e periferias, a Covid-19 é mais letal. O longo histórico de dificuldades de acesso aos equipamentos básicos de saúde, por exemplo, vulnerabiliza ainda mais a população negra. Douglas citou as várias faces da desigualdade e do abandono: mulheres sofrendo a violência doméstica, crianças sem poder estudar devido a dificuldade no acesso a internet, idosos com problemas para sacarem seus benefícios sociais e a política de segurança pública que vitimiza jovens negros todos os dias nas favelas, em suas brutais operações.

Ação de distribuição de cestas básicas da iniciativa Apadrinhe um Sorriso. Foto da página do Facebook da Apadrinhe um Sorriso

Ainda no plano econômico, segundo ele, a participação ou a interferência do Estado é muito marginalizada pelos economistas, mas em momentos de crise é comum que o socorro estatal seja colocado como a principal opção econômica. A pandemia mostra que o mercado não consegue por si só atender as demandas da população mais pobre. O grande desafio, em sua opinião, é mostrar que as desigualdades já existentes—que foram aprofundadas pela crise—são reflexo de uma sociedade “viciada no dinheiro e na acumulação”. Logo, “a mudança necessária para a economia passa pela priorização das pessoas e do coletivo, ao contrário da lógica acumulativa e individualista”, finalizou.

Fabbi Silva, pedagoga, articuladora territorial e líder comunitária sempre lembra que a dinâmica das favelas da Baixada Fluminense são diferentes das do Rio, pois aquelas ainda não ganharam o olhar atento dos pesquisadores e da mídia.

O Parque das Missões, local onde toca seu projeto há dez anos, o Apadrinhe um Sorriso, é uma favela no município de Duque de Caxias. Através desta iniciativa, Fabbi oferece às famílias e as crianças, rodas de leitura, atividades culturais e, não em raros momentos, ajuda com cestas básicas e atendimento de necessidades diversas do território. Para ela, a pandemia do coronavírus afetou a rotina da favela, mas a vida segue como antes pois as necessidades materiais são muitas. “Alguns têm medo do que a doença traz, mas a maioria vive em uma realidade de tanta perda, que a Covid -19 é somente mais uma coisa a ser enfrentada. E eu não consigo processar o pós na loucura de viver o agora”, relatou.

Ingrid Siss, psicóloga da Cidade de Deus que também lidera um projeto de acolhimento, a Casa Dona Amélia, com rodas de conversa e atividades culturais. Ingrid contou que com a nossa conversa, pela primeira vez, refletiu sobre algumas questões, pois as urgências dos vizinhos e das crianças atendidas são muitas. Seu parecer, de certo modo, foi positivo. Enquanto profissional da saúde mental, Ingrid acredita que todos sairão desse momento com novos aprendizados. Para ela, “seja aprender uma nova técnica, usar uma nova ferramenta, produzir coisas com eficiência e qualidade em um outro cenário ou até mesmo uma nova consciência, porque nunca fomos tão forçados a estar conosco como estamos agora. Não temos a possibilidade de escapar do que nos incomoda como antes. Por isso, estamos muito convidados a nos olharmos. Todo esse confronto individual vai nos orientar coletivamente para um lugar que eu ainda não sei qual é”, refletiu.

Ingrid e sua família. Foto por: Ingrid.

A falta de equipamentos públicos para garantir os direitos sociais básicos dos moradores das favelas e das periferias foi um ponto levantado por Ingrid. Chama sua atenção o baixo número de CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) na região da Cidade de Deus. A única unidade, que atende o entorno, conta com somente duas psicólogas para atender sete bairros. Para a psicóloga, se houvesse mais unidades do equipamento de assistência, o acesso à informação seria mais efetivo e a demanda pela renda emergencial, por exemplo, seria melhor atendida.

Ingrid pontuou que a rede de CRAS, em cidades como Rio de Janeiro, Nova Iguaçu e São Gonçalo, opera muito acima de sua capacidade. A norma de atendimento estabelece que cada centro de referência atenda, no máximo, 5.000 famílias. Por último, citou a questão orçamentária. O orçamento é peça-chave para políticas públicas de enfrentamento às desigualdades. Contudo, a PEC 95, a do teto dos gastos, limitou orçamento para investimento em saúde e educação, no país.

A pandemia do coronavírus trouxe mudanças que poderão ser incorporadas de vez na nossa rotina. O trabalho remoto, enquanto estratégia de redução de gastos, pode ser adotado como regra em algumas áreas, porém pode gerar maior precarização nas relações de mercado. O uso de máscaras virou parte do nosso vestuário. Higienizar alimentos e borrifar álcool nos materiais comprados na rua, certamente serão, também, parte da nossa nova rotina de vida. Contudo, como revelado nas falas das lideranças, a pandemia revela a necessidade de produzir outro jeito de viver, para além dos pequenos hábitos diários, como por exemplo: repensar o acesso à alimentação, o acesso aos equipamentos de saúde e, como podemos lutar e garantir o mínimo para quem não tem condições econômicas de sobrevivência. A Covid-19 não produziu nenhuma desigualdade. A pandemia só acentuou nossos velhos problemas.

O pós-pandemia, um período de luto em respeito a todos os mortos, demanda também uma marcha em busca pela afirmação de direitos. Douglas, Fabbi e Ingrid têm um olhar atento sobre o tema e estão sempre debatendo, discutindo e propondo soluções. Para eles, a territorialização das políticas públicas é fundamental, bem como criar novas possibilidades, novos paradigmas que, com criatividade, busquem lidar com as questões específicas de cada território.

Thábara Garcia, moradora de Magé, é professora e faz parte do coletivo Roda de Mulheres da Baixada.


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