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A Reinvenção das Artesãs de Favelas Durante a Pandemia [VÍDEO]

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Esta é nossa matéria mais recente sobre o novo coronavírus e seus impactos sobre as favelas e também da série LIVES Covid-19 nas Favelas.

No dia 17 de agosto, o Grupo de Trabalho de Geração de Renda da Rede Favela Sustentável (RFS)* realizou a aula pública online “Como as Artesãs de Favelas Podem se Reinventar na Pandemia?” O evento, realizado no Zoom e transmitido ao vivo no Facebook, contou com a presença de artesãs, ativistas e educadores que debateram os desafios apresentados por tempos tão incertos, a necessidade de adaptação e a importância de trabalharem em redes e grupos.

O debate foi moderado por Fernanda Garcia, comunicadora do Complexo do Alemão. Entre os palestrantes estavam Alessandra Filgueira, moradora de São Bento, Duque de Caxias e integrante da Associação de Mulheres de Atitude e Compromisso Social (AMAC); Geiza de Andrade, moradora da Vila Kennedy em Bangu, Zona Oeste, e fundadora do Projeto Marias em Ação e da sua própria linha de artesanato; Robson Patrocínio, coordenador do projeto de Economia Solidaria para Segurança Alimentar e Nutricional da Fiocruz; Clarice Cavalcante, co-fundadora do Devas – Artesãs da Maré na Nova Holanda, no Complexo da Maré; Bruna Salvador, moradora de Duque de Caxias, artesã que trabalha com materiais reciclados e integrante do Movimento Alternativo Libertário e Organizado em Prol da Cidadania (MALOCA); Paulo Almeida, voluntário da Assessoria e Planejamento para Desenvolvimento (Asplande), que proporciona apoio administrativo e financeiro a empreendedores; Ana Claudia Neves, fundadora do Criações by Ana e ex-catadora do Jardim Gramacho; Valdirene Militão, moradora da Maré, artesã que trabalha com materiais descartados e fundadora da linha Carioca Tem Arte; e Sara Dantas, instrutora de negócios e mentora do Instituto de Formação Empreendedora.

Devido à pandemia, as artesãs foram forçadas a ajustar seus métodos de negócios para poderem continuar produzindo e vendendo seus produtos. Além disso, como explicou Geiza de Andrade, a crise do desemprego levou mais moradores de favelas a experimentarem o artesanato: “Muitas profissionais que tinham contato físico se viram desempregadas, e muitas pessoas viram no artesanato uma forma de gerar renda“.

Para Valdirene Militão, as artesãs são especialmente aptas, devido à natureza criativa e inovadora de sua profissão, a se ajustarem e aproveitarem ao máximo qualquer situação: “Nesta pandemia, ou a gente surta ou a gente cria“. Ela explicou como as artesãs estão acostumadas a encontrarem o lado positivo no que a maioria das pessoas vê como circunstâncias totalmente negativas, referindo-se ao seu próprio trabalho: “As pessoas acham que algo é lixo, mas eu vejo material utilizável“. Bruna Salvador ecoou esses sentimentos, dizendo que ela “transforma o lixo em luxo”.

As artesãs fazem parte do movimento em prol da economia solidária do Rio de Janeiro, e os palestrantes enfatizaram a importância de como esta economia se dedica a melhorar diretamente a vida dos que nela trabalham. Robson Patrocínio explicou: “A economia solidária pensa a pessoa como centro. É um outro modo de estar no mundo, que vai para além da comercialização”.

Uma oportunidade em especial que a pandemia apresentou foi o súbito boom na demanda por máscaras. Muitas artesãs de favelas, treinadas em costura, começaram a produzir máscaras para suas comunidades e para além delas, o que se tornou uma ótima maneira para as artesãs manterem a estabilidade financeira. Falando de sua própria reinvenção, Ana Claudia Neves, que normalmente faz chaveiros e bolsas, explicou: “Uma amiga minha [me] falou: ‘Por que você não começa a produzir máscaras?’ Ela me ajudou e eu comecei a fazer as máscaras. Foi uma injeção de ânimo para mim”.

Diversas artesãs produziram máscaras em algum momento durante a pandemia, com muitos de seus produtos doados às comunidades, tendo em vista o interesse da saúde pública. Valdirene, por exemplo, trocou suas máscaras por alimentos que vão nas cestas básicas, que são distribuídas aos moradores da Maré em necessidade.

A experiência de Ana Claudia, ao receber ajuda de sua amiga, também reflete outro tema chave que surgiu durante o debate: as redes de apoio. Os palestrantes elogiaram amplamente o papel crucial que estes grupos de apoio desempenham em tempos normais, educando artesãs para realizarem práticas comerciais eficazes, e durante a pandemia, ajudando-as a se ajustarem.

“Quando estamos em uma rede, significa que temos apoio. Significa que o que eu não sei, alguém sabe”, diz Sara Dantas. “Juntas, somos muito mais fortes”.

Ao falar sobre seu trabalho com a Asplande, Paulo Almeida afirmou que, graças à organização e seus voluntários, “as mulheres realizam suas capacidades de forma remota” durante a pandemia. Descrevendo o papel da Asplande em ajudar as artesãs a desenvolverem planos empresariais sustentáveis e a manterem plataformas digitais, ele elogiou novamente a importância das redes, dizendo: “Se caminharem juntas, vão receber resultado melhor para todas“.

Em geral, as artesãs falaram muito do papel de seus artesanatos na melhoria de suas vidas, tanto financeiramente quanto de outra forma. Clarice Cavalcanti observou que à medida que as artesãs aprendem e se desenvolvem através das redes e cursos disponíveis, ela percebe que elas passam a “ter mais confiança nelas [mesmas], e a acreditar nelas [mesmas].

De modo semelhante, Bruna, que aprendeu técnicas artesanais através de vídeos no YouTube, atestou: “Não tenho nem dois anos no artesanato, mas têm sido uma experiência muito bacana na minha vida”.

Assista à Live Interativa Aqui:

*A Rede Favela Sustentável (RFS) e o RioOnWatch são projetos da Comunidades Catalisadoras. A RFS tem o apoio da Fundação Heinrich Böll Brasil.


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