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O Movimento Negro Organizado Hoje: Vozes da Coalizão Negra Por Direitos #DesenraizandoRacismo

Arte por Raquel Batista

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Esta é a segunda matéria de uma série de três sobre a Coalizão Negra por Direitos e dá início a uma série de matérias do projeto antirracista do RioOnWatch. Conheça o nosso projeto que trará conteúdos midiáticos semanais ao longo de 2021—Enraizando o Antirracismo nas Favelas: Desconstruindo Narrativas Sociais sobre Racismo no Rio de Janeiro. Para contribuir com essa pauta, clique aqui.

31 de dezembro de 2020, no último dia do ano, com quase 200.000 vidas perdidas para a Covid-19 no país, em uma pandemia que no Brasil mata mais negros, 81 lideranças de movimentos negros de todo o país gravaram um manifesto, em vídeo, para enviar sua mensagem ao povo brasileiro. Trata-se de mais uma ação de enfrentamento ao racismo da Coalizão Negra Por Direitos, uma articulação com incidência política no Congresso Nacional e fóruns internacionais. A Coalização reúne mais de 150 coletivos, instituições e entidades do movimento negro brasileiro de hoje.

No vídeo Manifesto da Coalizão Negra Por Direitos | Por um 2021 Verdadeiramente Antirracista, a Coalizão afirma que 2020 será lembrado por cada uma das vidas arrancadas pela pandemia de coronavírus—envia “sentimentos a cada uma das famílias”—mas ressalta que o ano de 2020 também “será lembrado pela luta e resistência do movimento negro, que ocupou o debate público como nunca antes”.

“Em 2021, a luta contra o racismo e pelas vidas negras continua! Este é o manifesto da Coalizão Negra Por Direitos.”

Com dois anos de existência, 54 documentos públicos e diversas mobilizações estratégicas de enfrentamento ao racismo—entre elas a denúncia de violações de direitos do Pacote Anticrime, e o manifesto e campanha #ComRacismoNãoHáDemocracia—a Coalizão Negra Por Direitos vem exercendo pressão estratégica na agenda nacional no debate público contra o racismo e a questão racial no Brasil.

O manifesto ‘Enquanto Houver Racismo, Não Haverá Democracia!’ já se tornou histórico, sendo um dos documentos mais importantes da história do movimento negro no Brasil. Em seis meses, 59.166 pessoas assinaram o manifesto em apoio a campanha, dentre elas, 132 assinaturas são de personalidades brasileiras (negras e brancas), uma para cada ano desde a abolição no Brasil. 

A Coalizão Negra Por Direitos enquanto movimento político é um baobá de vozes que unem as pontas da história e temporalidades da articulação do movimento negro brasileiro contemporâneo. O RioOnWatch ouviu algumas destas vozes. Para todas perguntamos: “Qual é a sua voz e lugar de voz dentro da Coalizão Negra Por Direitos?”

Nesta matéria apresentamos uma pequena cartografia de vozes que participam da Coalizão Negra Por Direitos: “população negra organizada, mulheres negras, pessoas faveladas, periféricas, LGBTQIA+, que professam religiões de matriz africana, quilombolas, pretos e pretas com distintas confissões de fé, povos do campo, das águas e da floresta, trabalhadores explorados, informais e desempregados”, conforme apresenta o primeiro parágrafo do manifesto Enquanto Houver Racismo Não Haverá Democracia.

“Eu sou essa voz de continuidade do legado do movimento negro organizado” – Douglas Belchior

De São Paulo, nascido em 1978, Douglas Belchior formou-se em história pela PUC-SP. É cofundador da Uneafro Brasil, rede de cursos para jovens e adultos da periferia, e cofundador da Coalizão Negra por Direitos.

“Eu sou de uma organização chamada Uneafro. Eu sou uma voz que é fruto da construção histórica do movimento que teve resultados objetivos para a sociedade brasileira. Eu sou um dos que lutaram para haver políticas de acesso à universidade. Me formei em meio à luta por cotas. A minha formação foi junto ao movimento negro, acompanhando as lideranças. Por isso, eu me considero como uma voz de continuidade. Eu me vejo como alguém que recebeu o canudo como diz [a peça] “O Topo da Montanha” do Lazáro Ramos e Taís Araújo… que recebe o bastão dos mais velhos para continuar essa escola de luta do movimento negro organizado: continuidade do trabalho e de um acúmulo político. Eu reivindico a minha voz neste lugar. Uma voz de um homem negro pai de meninas e meninos. Uma voz também da transição em termos de identidade racial e de gênero. Sou uma voz que consegue dialogar com os mais velhos como essa continuidade, mas também com essa nova geração mais jovem dos coletivos negros nas universidades. Talvez por isso eu tenha ocupado este lugar na Coalizão de fazer a costura.”

“Minha voz é uma voz de ponte de um diálogo intergeracional” – Winnie Bueno

De Pelotas, no Rio Grande do Sul, Winnie Bueno é escritora feminista, de 32 anos, e fundadora da Winniteca, programa de distribuição de livros para promover a mudança contra o racismo. É também doutoranda em sociologia e Iyalorixá do Ilê Aìyé Orishá Yemanjá.

“Participo da Coalizão Negra a partir de um lugar e conhecimento que é bastante afetivo, de quem vem com a trajetória de reivindicar as figuras do movimento negro, sobretudo, as mulheres do movimento negro, atuando em diálogo com as redes sociais. [Eu] era levada pela minha mãe desde os seis anos para reuniões do movimento negro na década de 1990. Me inseri na Coalizão em 2019 representando a Renafro [Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde]. Apesar da discussão do racismo religioso ter uma super importância na minha infância e na minha vida, eu tenho um diálogo com a juventude. Vejo minha voz como uma voz de ponte de um diálogo intergeracional entre a galera mais jovem com as lideranças mais consolidadas, os mais velhos, embora eu ainda não seja mais tão jovem. O movimento negro brasileiro sempre teve uma articulação histórica. Nunca foi passivo! Sempre foi sim, e é ativo. A reivindicação sobre a perspectiva de democracia que se inscreve desde 1988 no contexto nacional, a denúncia de todos esses sistemas de dominação a partir do racismo, tudo isso é colocado pela atividade política do movimento negro. Mas, sempre houve um silenciamento sobre isso, faz parte e configura o racismo.”

“Minha voz é a que bate de frente com esse sistema racista e desigual” – Anielle Franco

Do Rio de Janeiro, Anielle Franco é mestra em Jornalismo e Inglês pela Universidade da Carolina do Norte nos EUA e graduada em letras pela UERJ. Hoje atua como professora, escritora, e palestrante. É colunista no Portal UOL e é a atual diretora do Instituto Marielle Franco, no Rio de Janeiro.

“Desde 2018, eu me vejo neste lugar em que me sinto obrigada, não de uma maneira ruim, mas ainda assim obrigada, a ter uma voz mais ativa naquilo que a gente acreditava. Quando a gente [Instituto Marielle Franco] entra para a Coalizão, eu assumo de vez a voz que fala e que tenta inspirar outras mulheres negras a seguirem como a gente seguiu mesmo diante desse luto enorme que se tornou esse vazio em nossas vidas após a morte da minha irmã. Minha voz hoje representa uma parcela grande desse país, mas eu não sou a única a representar porque a gente de fato hoje inspira muita gente. Porém, tem também o outro lado disso: o ódio. A gente sabe que existe, mas a gente tenta não se deixar levar por ele porque nossa voz, a voz do Instituto Marielle fora e dentro da Coalizão, é uma voz que ecoa no mundo inteiro, é uma voz de disputa de narrativas, de manutenção das histórias e legados, sejam eles quais forem. Então eu diria que a minha voz está neste caminho de inspirar novas lideranças no movimento negro organizado. De cuidar para que nenhuma outra fake news surja e tenta matar a Mari mais uma vez como já fizeram ou matem qualquer outro corpo e legado negro. Minha voz como participante da Coalizão vai no caminho para mostrar que quanto mais é o silêncio, mais isso nos prejudica. É uma voz para botar para fora e para bater de frente com esse sistema racista e desigual, que insiste em apagar quem foi Marielle, mas não só ela. Que insiste em apagar quem somos e nossas raízes… apagar de onde a gente vem e para onde a gente vai e pode ir.”

“Minha Voz representa a voz dos negros e negras evangélicos brasileiros” – Ariovaldo Ramos

De São Paulo, Ariovaldo Ramos é pastor evangélico da Comunidade Cristã Reformada de São Paulo. É ex-presidente da Associação Evangélica Brasileira e um dos fundadores da Frente de Evangélicos Pelo Estado de Direito.

“Falo em nome de um coletivo amplo, desse lugar e grupo do movimento negro, que é enorme. A maior parte dos negros e negras brasileiras se professam evangélicos, majoritariamente, pentecostais. E a maioria dos evangélicos no Brasil é composta por negros e negras. Somos mais de 8 milhões. Esse é meu lugar de voz e representação. Estamos na Coalizão Negra Por Direitos porque o nosso grande problema, e não só de negros e negras, mas de grupos de resistências no Brasil, é que nós criamos uma profusão de entidades cada qual com suas especificidades. Embora isso seja positivo por um aspecto, pulveriza a nossa voz. Separados, nossas vozes não criam a repercussão necessária para fazer valer a defesa de nossos direitos junto às instituições do Estado. Nossa voz perde força. Por isso, a Coalizão é extremamente importante, ela unifica o som. Faz reverberar o som da comunidade negra como um todo reivindicando uma postura antirracista por parte do Estado brasileiro. Transforma nossas vozes em uma potência que não possa deixar de ser ouvida. É isso que a Coalizão Negra Por Direitos faz.”

“Minha voz é de uma mulher negra, lésbica da Amazônia” – Darlah Farias

Coletivo Sapato Preto Lésbicas Negras Amazônidas do Belém do Pará e o Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa), Ambas as instituições fazem parte da Coalizão Negra Por Direitos.

“Minha voz é de uma mulher negra, lésbica da Amazônia. É uma voz importante como todas as outras, mas se torna importante para a gente trazer para o front porque mostra na prática aquilo que o movimento negro sempre fala: que não somos homogêneos, mas sim heterogêneos. São múltiplas facetas que se tem ali dentro da luta do movimento negro. A representatividade que eu trago através da minha fala e corpo é, inclusive, a minha territorialidade, pois enquanto mulher amazônica trago a visibilidade de uma Amazônia negra. Nós temos uma população autodeclarada como negra [e parda] aqui na Amazônia de 71,9%. Então, minha participação na Coalizão traz esta voz que fala deste lugar: de mulher cis negra lésbica que traz para o debate a pauta da sexualidade para a gente também debater e combater a LGBTfobia que ainda existe na sociedade e dentro do movimento negro.”

Nenhum Passo Atrás

Para todas as vozes da Coalizão Negra Por Direitos, o racismo e a falta de igualdade racial no Brasil é secular, porém, a partir do governo atual o quadro racista avançou em práticas políticas concretas, como por exemplo: o corte em 2019, da verba destinada para comunidades quilombolas e da redução do financiamento ao programa de Enfrentamento ao Racismo e Promoção da Igualdade Racial.

Por isso, as vozes das diferentes frentes dos movimentos negros no Brasil estão em coalizão (pacto político) para gritar que com racismo não há democracia e lutar por uma democracia antirracista. É preciso que todos os setores da sociedade “sejam coerentes” e “pratiquem o que discursam”, conforme mais uma vez aponta no manifesto antirracista lançado em 31 de dezembro.

Arte original da matéria por Raquel Batista

Arte original da matéria por Raquel Batista

Sobre a autora: Tatiana Lima é jornalista e comunicadora popular de coração. Feminista negra, integrante do Grupo de Pesquisa Pesquisadores Em Movimento do Complexo do Alemão, atua como repórter e gerenciadora de Redes do RioOnWatch. Cria de favela, negra de pele clara, mora no asfalto periférico do subúrbio do Rio e é doutoranda em comunicação pela UFF

Sobre a artista visual: Raquel Batista é artista visual e trabalha como fotógrafa e ilustradora. É estudante na Escola de Belas Artes da UFRJ, mulher negra e moradora da Zona Oeste do Rio. 

Esta é a segunda matéria de uma série de três sobre a Coalizão Negra por Direitos e dá início a uma série de matérias do projeto antirracista do RioOnWatch. Conheça o nosso projeto que trará conteúdos midiáticos semanais ao longo de 2021—Enraizando o Antirracismo nas Favelas: Desconstruindo Narrativas Sociais sobre Racismo no Rio de Janeiro. Para contribuir com essa pauta, clique aqui.


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