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‘Estamos Abandonados ao Nosso Próprio Destino’: Covid Ameaça Favelas do Brasil

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Leia a matéria original por Dom Phillips, em inglês, no The Guardian aqui. Esta é a nossa mais recente matéria sobre o novo coronavírus e seus impactos sobre as favelas. O RioOnWatch traduz matérias do inglês para que brasileiros possam ter acesso e acompanhar temas ou análises cobertos fora do país que nem sempre são cobertos no Brasil. 

Moradores têm medo de como suas famílias vão suportar quando a comida acabar e com Jair Bolsonaro sabotando a mensagem de quarentena.

Renato Rosas sabe como é a pobreza. O músico e representante comercial de produtos biomédicos cresceu em uma das maiores favelas do Brasil, na cidade amazônica de Belém. Seus parentes ainda moram nas casas de palafita que se alinham nos rios negros e poluídos que desembocam na Baía do Guajará.

“É a pobreza mais extrema”, disse ele sobre o bairro Baixadas da Estrada Nova Jurunas, onde inundações, cobras sucuris mortais que se espreitam no lixo flutuante e facções armadas de tráfico de drogas estão entre os desafios encontrados.

Em março, conforme a pandemia do coronavírus começou a se intensificar, governadores dos estados do Brasil fecharam escolas, comércios e lojas, cortando a renda de moradores de favela e os deixando com baixos suprimentos de comida. Mais da metade da população de 1,5 milhão de pessoas de Belém vive em favelas e crianças que normalmente se alimentam nas escolas estavam em casa com fome. “As pessoas estavam passando necessidades”, disse Renato, de 38 anos.

Ele e seus colegas do projeto musical e educacional Farofa Black começaram a arrecadar dinheiro para distribuir cestas básicas pela comunidade.

“Quando paramos em algum desses lugares as pessoas vêm correndo. É muito rápido, tudo acaba muito rapidamente”, contou.

Renato Rosas, à esquerda, ajuda com a distribuição de comida em Belém.

Cenas como essa estão se repetindo por todo o Brasil, onde cerca de 14 milhões de pessoas vivem em favelas densamente povoadas neste país profundamente desigual. Até o dia 9 de abril, o Brasil tinha 22.169 casos confirmados de Covid-19 e 1.123 mortes*, apesar de que a subnotificação significa que os números provavelmente sejam muito maiores.

Lideranças comunitárias, ativistas e mobilizadores de projetos sociais em favelas de São Paulo, Belém, Rio de Janeiro, Salvador, Manaus, Belo Horizonte e São Luís têm entregado comida e kits de higiene para moradores desesperados enquanto a fome começa a atacar.

Eles se preocupam que o coronavírus possa se espalhar rapidamente nas casas abarrotadas e nas passagens estreitas, onde com frequência não há saneamento básico, serviços de saúde podem ser precários e doenças como tuberculose e Zika prosperaram. 

A pandemia expôs o quão pouco o Estado brasileiro sabe sobre seus cidadãos mais pobres, com o governo segurando por semanas um pagamento mensal de R$600 por três meses para até 25 milhões de trabalhadores “informais” e desempregados antes de lançar um aplicativo no dia 7 de abril. Também foram suspensas as contas de luz para brasileiros de baixa renda por três meses.

Pessoas que não conseguiram ter acesso ao pagamento, segundo relatos, formaram filas em agências lotéricas e bancos públicos em diversas cidades pelo Brasil. Alguns não tinham seu número de cadastro de pessoa física (CPF) regularizado e, conforme observaram ativistas, nem todos têm um telefone celular ou crédito para acessar a internet.

Favelas em todo o país já estavam se organizando. Alguns ativistas, como Renato em Belém, são parte da rede nacional de G10 Favelas, montada por Gilson Rodrigues, presidente da associação de moradores da enorme favela de Paraisópolis, em São Paulo. A G10 organizou um encontro em novembro do ano passado, na qual Renato esteve presente. Seus métodos de organização estão sendo adotados por todo o Brasil.

Como Gilson destacou em um vídeo amplamente compartilhado nas redes sociais, a palavra “favela” tem estado visivelmente ausente na comunicação do governo. “É como se nós não fôssemos brasileiros e não existíssemos”, ele disse ao The Guardian.

Quarentena nas favelas. Foto: Nicoló Lanfranchi/The Guardian

Paraisópolis distribuiu 15.000 cestas básicas, montou uma cozinha comunitária e lançou uma campanha para que pessoas “adotem” diaristas que perderam os empregos em bairros de luxo, onde o coronavírus emergiu inicialmente. “Presidentes de rua” explicam a importância do distanciamento social e da higiene das mãos, organizam as doações, e também coordenam os dois médicos, as três enfermeiras e três ambulâncias que a favela contratou. Ela está até construindo um hospital de campanha.

“Nós estamos instalando uma estrutura de guerra, porque nós acreditamos que estamos sendo abandonados ao nosso próprio destino”, disse Gilson. “Nós acreditamos que os casos estão chegando.”

Uma foto do WhatsApp de distribuição de comida.

Na favela Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte, 45 voluntários distribuíram 3.500 cestas básicas, disse Cristiane Pereira, presidente da associação de moradores do local. Seus “presidentes da vila” foram adaptados do G10. “Nós aprendemos o jeito certo de mobilizar a comunidade”, contou Pereira.

No Rio de Janeiro, Raniele Batista, 38, acabou de receber uma cesta básica no vasto Complexo do Alemão.

“Nós temos nove pessoas em casa, sete crianças, meu marido acabou de ser demitido, a situação vai ficando pior e pior”, diz ela. “Graças a Deus eu recebi uma cesta básica aqui, mas eu não sei como vai ser amanhã.”

Sua doação veio do Abraço Campeão, um projeto de artes marciais mantido pelo morador Alan Duarte, que agora entrega cestas básicas para 400 famílias. “Nós estamos muito assustados, o coronavírus vá chegar com força nas favelas”, disse Alan. Mortes pelo coronavírus já foram reportadas nas favelas da Rocinha, Maré e Manguinhos, no Rio.

Pesquisas feitas pelo Instituto Locomotiva de pesquisa e pela Central Única das Favelas (CUFA), uma organização nacional, descobriram que 80% dos trabalhadores que moram nas favelas já perderam suas fontes de renda pela crise do coronavírus. Metade dos moradores de favela tinham comida suficiente para, no máximo, uma semana.

“As pessoas estão preocupadas sobre como vão sobreviver”, disse o fundador da CUFA, Celso Athayde. A rede de mais de 400 favelas distribuiu milhares de toneladas de comida, bem como sabão doado pela população e por grandes empresas, ele disse.

Mas enquanto 71% dos moradores das favelas não acreditam que o isolamento social deva acabar, de acordo com o estudo, muitos simplesmente não têm a opção de parar de trabalhar.

“Quando você vai ao posto de gasolina… é um morador de favela que atende você”, disse Celso. “Quando você vai ao supermercado, o caixa é um morador de favela, o estoquista, o faxineiro, o segurança, todos vivem em favelas.”

O presidente Jair Bolsonaro tem atacado o isolamento social, ordenado que brasileiros voltem ao trabalho, e se misturado com o povo em Brasília, contrariando seu próprio ministro da Saúde, Luiz Mandetta (demitido pelo presidente em 16 de abril), os governadores e a Organização Mundial da Saúde.

“Essas mensagens conflitantes levam o povo de volta às ruas”, disse Ricardo Fernandes, ator do grupo teatral Os Arteiros, da Cidade de Deus, no Rio. O grupo faz parte da Frente CDD, que distribuiu 1.000 cestas básicas esta semana.

Cestas básicas na favela Cidade de Deus, Rio de Janeiro. Foto: Nicoló Lanfranchi/The Guardian

A falta de unidade do governo contrasta com a forma como diferentes grupos e organizações da favela têm se unido. “As pessoas colocam de lado suas diferenças e rivalidades”, disse Ricardo.

Cada vez mais, pessoas pelo Brasil estão seguindo as instruções de Bolsonaro enquanto a quarentena se desintegra. Seus comandos foram reforçados por pastores evangélicos na favela Coroadinho em São Luís, no estado do Maranhão.

Três moradores estavam em isolamento em casa com suspeita de coronavírus, mas as pessoas encheram as ruas e as lojas estavam abertas, disse a professora Christiane Mendes. “Aqui nós trabalhamos de manhã para comer à tarde. Eles não podem fechar”, disse ela sobre o comércio local.

Christiane faz parte de uma associação educacional que está entregando comida e produtos de higiene aos moradores mais pobres, alguns dos quais vivem em casas de madeira e adobe, sem água encanada. Ela não conseguiu se registrar no aplicativo do governo para o pagamento do auxílio emergencial, nem ninguém em sua família.

“A crise apenas lançou uma luz naquilo que nós já sofremos, ela intensificou tudo, os problemas com água, comida, segurança”, disse ela. “Ela fez o mundo realmente escutar a voz da favela.”

*Confira os dados atualizados no Painel Coronavírus do Ministério da Saúde aqui.


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